|o (des)entendimento|

Até o primeiro ano do ensino médio, não entendia a malícia envolvida por trás da música sabão crá-crá. Sim, imaginava uma sacola de mercado com cabelos dentro! Acredite se quiser.

Nunca fui muito rápida para entender tais entrelinhas: malícia, ironia, sarcasmo. Isso é bom por um lado, porque eu não fico triste ou envergonhada (a ignorância é um benção). Mas, por outro lado, é terrível, pois sou motivo de chacota e perco um pouco a noção de como lidar com as pessoas.

Estávamos eu e uma amiga em frente ao nosso colégio. De repente sentou ao nosso lado uma garota da turma. Ela começou a reclamar sobre suas amigas, que elas eram isso, eram aquilo… Passados 15 minutos de desabafo, ela foi embora. Olhei para a cara da minha amiga e falei:”Que feio! Isso que elas são amigas!”. Minha amiga com o maior entendimento do mundo falou:”Lu, ela está nervosa, não tem nem noção do que está falando. Daqui a pouco elas voltam a se falar”.

Na hora, fiquei menor do que já sou. Parei de pensar sobre falsidade e comecei a pensar sobre como eu queria ter esse entendimento da minha amiga, para poder errar menos e parar de falar alguns preconceitos de quem não sabe ler entrelinha.

Muitas vezes, as coisas estão acontecendo ao nosso redor, mas nós só estamos vendo aquilo que nos convêm, não dando conta que nem tudo é o que vemos. Acho isso complexo, mas nada que um treino diário não possa clarear essa entrelinha em Arial 4.

Boa tarde.

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|a fala|

Indo a uma entrevista de um projeto da faculdade, comecei a conversar com um senhor. Devia ter em torno de uns 60 anos, trabalhava como aspirador de grama e usava uma máquina parecida com essa.

O nosso diálogo foi muito difícil uma vez que não entendia o que ele falava, além de incômodo, pois em vários momentos tive que pedir que repetisse alguma frase.

Não fazia sentido. “Porque que eu não consigo entender o que ele fala? Será que ele é de outra região do país? Será que nunca foi à escola? Será…? Será…? Será…?”. Não cheguei a nenhuma conclusão.

Após muita luta para trocar meia dúzia de palavras, cheguei a minha entrevista. Era para dar uma aula de matemática para organizadores de um cursinho popular.

A primeira informação foi: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Pensei: “Beleza! Vai ser tranquilo”. Comecei a minha aula.

Passados dois minutos, uma pessoa levanta a mão: “Não entendi”. Expliquei novamente. Passados 30 segundos: “Não entendi”. Expliquei de novo. E foi uma sucessão de  “Não entendi” atrás, ao lado, à frente de “Não entendi”. Até que me dei conta, eu tinha que explicar uma matéria sem introduzir essa matéria.

Fui arriscando, tentando fazer com que fosse entendida. Falhei. Parecia tão óbvio o que eu falava e como falava que esqueci da primeira informação: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Eu não tinha noção da dificuldade que eles tinham.

Após uns 500 tapas na cara, veio a análise das pessoas que me assistiram: “Você é muito ansiosa”. Então a ficha caiu. Na ânsia de me fazer entendida, esqueci com quem estava falando e então criei uma barreira de linguagem entre mim e os alunos.

Nesse quesito, eu era o senhor. Ansiosa para passar uma informação e me isolando por não conseguir fazê-la. Mas também escutei: “Você é paciente”. E vi que ansiedade e paciência andam juntam, pois quanto mais ansioso mais exercício de paciência é necessário.

Então, notei que o diálogo só acontece quando sabemos o que queremos transmitir e com qual público estamos lidando.

Boa noite!

|o falatório|

Minha avó nunca gostou que falássemos alto perto dela.

Nesse dia das mães, ocorreu algo muito interessante. A família toda estava sentada, ao redor da mesa, almoçando e conversando. Um falando com o outro. O outro com o outro. O da ponta com o da outra ponta. Havia uma salada de gente falando e, o mais interessante, entendo um ao outro. Até que a minha avó falou sua frase habitual:”mas que falatório, falem mais baixo!”. Nesse momento um olhou para o outro e respeitaram, mas não deu 10 minutos e  o “falatório” voltou.

Quando a minha avó disse:”nossa que falatório!”, eu me senti muito feliz! Fiquei contente por ver que a minha família conversa e que gosta de compartilhar as coisas que acontecem. Foi uma sensação maravilhosa ver todos conversando e um interessado tanto em expor experiência quanto em ouvir o que o outro tinha a dizer. Achei fantástico estarmos fazendo algo que para algumas famílias é tão difícil: conversar.

E então eu parei de me importar se falávamos alto. Primeiro, porque estávamos dentro de casa (falar alto na rua é estranho). Segundo, porque mostra que há uma união e que temos interesse um pelo o outro. Terceiro, porque não tememos que os outros saibam como a nós somos atrapalhados, por exemplo. Como quando a minha avó matou o Zeca Pagodinho nove vezes, sendo que quem havia morrido era o Jair Rodrigues…

Mas o principal motivo de eu não me importar, foi por ver que as pessoas que eram donas do dia, minha mãe e minha avó, estavam ganhando o presente mais bonito e que nada pode comprar: carinho.

Feliz dia das mães atrasado, mamães, e desejo a todos, pelo menos, um falatório na semana 🙂

|os valores|

Sempre ganhei tudo muito fácil, era pedir e ter, mesmo assim, nunca fui muito mimada e nunca fui de dar valor as coisas (somente dava àquelas que eu não pedia). Certa vez ganhei um MP4 e fiquei contente e tals, só tinha um problema, por ser muito curiosa eu o quebrei em uns 5 meses. Traduzindo: para mim era um pequeno pedaço de metal desmontável (se era montável? eu descobri depois que não rs).

Cresci assim, não dando muito valor ao material, até o dia em que comecei a ter o meu dinheiro. Juntei o meu ‘rico’ dinheirinho por um tempo e comprei o que eu queria. Primeira vez que dei muito valor a algo comprado. Depois foi diminuindo esse valor e tals, mas hoje ainda olho para ele e vejo como minha primeira conquista.

E vendo o meu redor, eu vejo como as coisas estão sem valor, sei lá, as pessoas esqueceram o que é valor, como mostrar que algo tem valor, a se dar valor. E por isso esse mundo tá um descaso vazio, na minha concepção.

E como estão os seus valores hoje?

|a música|

hoje farei uma analogia sobre música.

sabe quando você ouve aquela música que você ama, e alguém que você gosta diz: “MAS QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ TÁ OUVINDO?” então você se sente até meio fora de contexto. logo, você tem duas saídas: finge que nem curte, (“poxa! estava no aleatório, nem percebi que estava tocando isso”) , ou então, encara e fala: “EU CURTO VALEU?”

vejo muitas pessoas assim, em cima do muro, com diversas situações.

a música são pessoas. às vezes você muda a sua música favorita por causa de outra que apareceu do além, e te atraiu. e então, quando parece que você esqueceu da outra música, aparece alguma situação, alguma coisa que te dá SAUDADE ou NOSTALGIA, e então você vai e quer reouvir a música. até que você reouve e fica com aquela sensação de cheiro de grama após a chuva.

ou então, a música faz tanto sucesso, mas tanto, que ela acaba sendo regravada só que em outros estilos; para poder atrair mais pessoas. ou seja, ela continua a mesma, mas a essência, o seu ritmo, é outro para poder agradar a outro estilo, ou para “tentar” agradar a todo mundo.

se fosse falar de mim, eu já fui uma música regravada em vários estilos, mas percebi que nunca você vai agradar a todos, então voltei a ser uma música gravada em um estilo só, sendo este um bem calminho, que pode ter umas notas mais altas e desafinadas as vezes (crises), mas que volta a ser calminha, que de tão calma é até chata (né victor alb?).

as vezes as pessoas não aceitam a música que você é, mas vai de você escolher, ser aquilo que você gosta, e espalhar isso para todos, ou ser influenciável e ser o que querem que você seja, por ter medo de sofrer desprezo. saindo da analogia, eu desprezo o funk, porque acho desnecessário, mas por trás dele há uma vida difícil (cheia de lutas e exclusão social), onde boa parte das pessoas não tem mais razão de sorrir se não for no prazer. e da mesma forma que eu  o desprezo, não tenho dúvidas que muitos deles me desprezariam por eu ser assim. então o que me resta e olhar para mim, e deixá-los retratando a realidade deles sem discriminação, porque se não é para ajudar, melhor que fique calada.

e você, qual música seria?