|o quarto|

Em 2009, abri mão do meu quarto durante alguns meses.

Não tinha noção de quão ruim era ficar sem quarto. Entrava nele umas 20h para pegar minhas coisas para o dia seguinte e escolhia minuciosamente os livros que iria precisar para a escola, a roupa que usaria quando chegasse em casa, os sapatos… Sempre esquecia alguma coisa, acabava ficando sem.

Até que, em determinado ponto, isso virou rotina. Já sabia o que iria precisar para determinado dia da semana. Tudo estava resolvido. Tão bem resolvido que aprendi a dar valor não só ao meu quarto, mas ao serumaninho que estava morando nele, meu avô.

De um período de abstinência de meu cantinho, acabei ganhando outro espaço, um pedacinho no coração de meu avô. Um homem sério para quem não o conhecia, mas com um coração enorme.

A partir daí, eu invadi seu espaço, errei em suas palavras cruzadas, tirei-o de casa para assistir filmes e acabei descobrindo que tínhamos muito em comum. Ele me apresentou a livros, a lugares diferentes, a pessoas incríveis, às regras de etiqueta e me deu presentes inestimáveis.

Hoje, em 2017, eu abro mão da vida dele pelas lembranças que ele me proporcionou.

Agradeço a Deus pela sabedoria de ter reconhecido a tempo o quão valioso ele era, pois não vejo um momento que não tenha apreciado sua presença. Nos dávamos sempre bem? Não! Mas, se quer alguém que só concorde, converse com um espelho, pixuleco.

E assim, pude conhecê-lo tanto a ponto de saber a música que queria em seu último momento antes do calor. A ponto de não sofrer tanto com sua partida. A ponto de entender que um dia sem ele ler jornal, não era um dia que valia ser vivido.

Fim.

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|a caixa|

Um papel de propaganda pode oferecer às pessoas somente o conteúdo nele presente, mas há uma dobradura onde você pode utilizar oito papéis destes e fazer a base e a tampa de uma caixa.

Quando duas pessoas começam a namorar, elas começam a construir a base de uma caixa. Elas criam um espaço delas, onde guardarão, juntas, suas lembranças, alegrias, tristezas, surpresas e etc.

Se o relacionamento fica mais sério, a espessura do papel que é feita a base vai engrossando. Pois uma caixa de dobradura feita com papel sulfite rompe muito mais facilmente do que se feita de papel cartão.

Há um ponto em que a caixa já passou pelo “teste de qualidade”. Ou seja, ela já apanhou bastante e já possui bastantes coisas dentro (saudade, amor, paciência, sabedoria). Logo, o casal resolve revesti-la com algo que não a faça desmontar mais: o casamento.

Obs.: com a caixa mais rígida, ela ainda pode sofrer com quedas, mas dificilmente ela se romperá.

Eu considero a tampa como se fossem os filhos que esse casal pode ter. Por consequência, se a caixa estiver com tampa, haverá um limite ao casal para adicionar coisas dentro dela, pois agora há uma barreira o qual não lhe permite agir sem pensar em terceiros. Mas, em contrapartida, ele poderá, um dia, brincar de boneca russa.

Caso escolha não ter uma tampa para a caixa, o casal pode adicionar mais e mais memórias (viagens, loucuras e etc.) dentro desse espaço. E não precisará se preocupar com crianças que dependam dele.

Mais algumas coisas: a base sempre será maior que a tampa e esta, no decorrer do tempo, pode se perder. E, ademais, o que ajuda esta dobradura a ficar em pé é a base. Quer dizer, os filhos não são mais importantes que o cônjuge.

Enfim… Feliz dia dos namorados e me desculpe se assustei os novos casais da vizinhança. Beijos.

|a magia|

Durante 10 dias, senti que a mágica que sempre senti em casa havia sumido.

Quando passava pela porta da sala, as coisas estavam mudadas, meio bagunçadas, faltava alguma organização. Se ia à cozinha, parecia um ambiente pesado, um lugar que falava comigo e dizia: “ânimo, ânimo, você consegue, você é prendada!”. No meu quarto, não era muito diferente, havia a ausência de palavras soltas no ar, de caras de espanto e de fofoquinhas sobre como foi o dia. Pois é… Foi assim que descobri a magia que minha casa continha.

O nome dessa magia que eu senti falta por dez dias é: família. Não! Ninguém morreu, eles só viajaram…

Considero uma mágica divina a presença dela comigo. Primeiramente, pelo fato de não me sentir sozinha e não precisar ligar a televisão para “fingir” que estou acompanhada. Como também por, magicamente, as coisas estarem arrumadas e consertadas. A comida estar, magicamente, quentinha no fogão, assim como a louça estar lavada e guardada.

Contudo, apesar de sentir falta dessa magia, eu recebi um presente em troca: a responsabilidade. Percebi que, mais dia ou menos dia, eu teria que assumir esses deveres para ter minha independência. Notei também que meus mágicos precisam de um descanso e que ver a foto deles andando de patins não tinha preço. Além disso, o que eu mais aprendi foi que, daqui a um tempo, eu serei o mágico de alguém, então preciso me preparar para isso (não, eu não estou grávida!).

Enfim… Meus queridos mágicos, obrigada pela magia que vocês me proporcionam todos os dias. Eu amo vocês (:

|o falatório|

Minha avó nunca gostou que falássemos alto perto dela.

Nesse dia das mães, ocorreu algo muito interessante. A família toda estava sentada, ao redor da mesa, almoçando e conversando. Um falando com o outro. O outro com o outro. O da ponta com o da outra ponta. Havia uma salada de gente falando e, o mais interessante, entendo um ao outro. Até que a minha avó falou sua frase habitual:”mas que falatório, falem mais baixo!”. Nesse momento um olhou para o outro e respeitaram, mas não deu 10 minutos e  o “falatório” voltou.

Quando a minha avó disse:”nossa que falatório!”, eu me senti muito feliz! Fiquei contente por ver que a minha família conversa e que gosta de compartilhar as coisas que acontecem. Foi uma sensação maravilhosa ver todos conversando e um interessado tanto em expor experiência quanto em ouvir o que o outro tinha a dizer. Achei fantástico estarmos fazendo algo que para algumas famílias é tão difícil: conversar.

E então eu parei de me importar se falávamos alto. Primeiro, porque estávamos dentro de casa (falar alto na rua é estranho). Segundo, porque mostra que há uma união e que temos interesse um pelo o outro. Terceiro, porque não tememos que os outros saibam como a nós somos atrapalhados, por exemplo. Como quando a minha avó matou o Zeca Pagodinho nove vezes, sendo que quem havia morrido era o Jair Rodrigues…

Mas o principal motivo de eu não me importar, foi por ver que as pessoas que eram donas do dia, minha mãe e minha avó, estavam ganhando o presente mais bonito e que nada pode comprar: carinho.

Feliz dia das mães atrasado, mamães, e desejo a todos, pelo menos, um falatório na semana 🙂