|o quarto|

Em 2009, abri mão do meu quarto durante alguns meses.

Não tinha noção de quão ruim era ficar sem quarto. Entrava nele umas 20h para pegar minhas coisas para o dia seguinte e escolhia minuciosamente os livros que iria precisar para a escola, a roupa que usaria quando chegasse em casa, os sapatos… Sempre esquecia alguma coisa, acabava ficando sem.

Até que, em determinado ponto, isso virou rotina. Já sabia o que iria precisar para determinado dia da semana. Tudo estava resolvido. Tão bem resolvido que aprendi a dar valor não só ao meu quarto, mas ao serumaninho que estava morando nele, meu avô.

De um período de abstinência de meu cantinho, acabei ganhando outro espaço, um pedacinho no coração de meu avô. Um homem sério para quem não o conhecia, mas com um coração enorme.

A partir daí, eu invadi seu espaço, errei em suas palavras cruzadas, tirei-o de casa para assistir filmes e acabei descobrindo que tínhamos muito em comum. Ele me apresentou a livros, a lugares diferentes, a pessoas incríveis, às regras de etiqueta e me deu presentes inestimáveis.

Hoje, em 2017, eu abro mão da vida dele pelas lembranças que ele me proporcionou.

Agradeço a Deus pela sabedoria de ter reconhecido a tempo o quão valioso ele era, pois não vejo um momento que não tenha apreciado sua presença. Nos dávamos sempre bem? Não! Mas, se quer alguém que só concorde, converse com um espelho, pixuleco.

E assim, pude conhecê-lo tanto a ponto de saber a música que queria em seu último momento antes do calor. A ponto de não sofrer tanto com sua partida. A ponto de entender que um dia sem ele ler jornal, não era um dia que valia ser vivido.

Fim.

|a participação especial|

Quando minha irmã começou a trabalhar, me deu um CD do Charlie Brown Jr. Acústico MTV onde havia uma música com participação especial da Negra Li. Como era novinha, achava que toda vez que o Chorão iria cantar essa canção a Negra Li apareceria magicamente para cantar junto. Doce ilusão.

Assistindo TV, o Charlie Brown apareceu cantando essa música. Então pensei: “Negra Li aparecerá em breve e todo mundo fará cara de feliz”. Que nada! Aprendi nesse dia o que era playback.

Quando mais nova, ocorria uma participação especial em casa todo dia por volta das 18. Todo mundo ficava feliz quando aparecia. Jantávamos juntos, ríamos, discordávamos, éramos felizes e plenos.

Só por aparecer, era especial. O herói, o dono do salame, da pescaria, da oficina no fundo de casa. O Chico. Chicão, para os mais íntimos. Meu pai. Com seus defeitos e qualidades, meu Pai.

Certa vez, minha mãe escreveu que cheguei com uma bagagem bastante grande para alguém tão novo. E no carrinho da montanha russa conheci alguns playbacks da participação especial: meu papagaio, que imitava igualzinho a voz dele; o correio de voz, era a voz dele; cadernos; fotos; fatos. Minha memória.

Não sou triste, mas sabe o que que é? Minha memória me trai e acaba esquecendo os detalhes. Eu era nova. Mas sempre levo comigo o carinho pela caixa de ferramenta, pela morsa que brincava de prender o meu dedo… O peixinho de plástico da pescaria tenho até hoje. Sinto saudade.

Mas apesar de tudo, que bela participação especial tive o prazer de ter comigo para assistir Xena A Princesa Guerreira.

Feliz dia dos Pais!

PS.: Toda vivência com alguém que amamos deve ser tratada como uma participação especial, pois nunca sabemos quando virá o playback. 

|o leque|

Quem já pegou um leque e tentou abrir igual a Nany People, sabe o que é ser feliz.

O leque é um objeto bastante interessante e quem o projetou é um anjo. Pois, ele é portátil, prático, bonito, útil… Tão útil que até construtoras começaram a fazer leques (abanadores, melhor dizendo) divulgando o seu imóvel.

Mas falemos sobre um tipo específico de leque: aquele que é formado por vários “pauzinhos” e que geralmente tem um tecido bastante bonito. Esse leque se fechado, é só um pedaço de madeira que lembra um leque, mas não possui função.

Saudade é como um leque. E a quantidade de calor é proporcional a quantidade de tempo (não, isso não é física!).

Com isso, quando a quantidade de calor no ambiente não faz as pessoas suarem, não há a necessidade de usar o leque. Ou seja, o leque existe, mas ele está guardado na bolsa. A saudade existe, mas não há um vazio tão enorme no peito. No entanto, quando o calor é muito grande, a necessidade de usar o leque é proporcional, então, o leque torna-se aparente para os outros. O que significa que quando o tempo sem ver alguém é muito extenso, liberamos essa saudade de alguma maneira que a alivie.

Alguns choram. Outros compõe. Tem aqueles que assistem séries. Os que escrevem. Dentre outros. As pessoas, por mais que não percebam demonstram essa saudade de maneira a expô-la para si, ou para todos. Mas a expõem, porque isso faz a saudade doer menos. As pessoas só param de se abanar quando a mão começa a doer e a fadiga é maior que o calor.

O leque só fecha e é guardado quando a distância é zero, ou, quando tentamos nos acostumar a temperatura mais alta esperando que ela volte a ficar normal.

Boa noite!

|o futebol|

Assistindo a copa do mundo notei quão importante é esse evento no quesito de tentar unir nações que muitas vezes não são muito amigas.

Não quero dizer que as nações se tornaram melhores parceiras por causa dos jogos. Só penso que todo mundo se uniu por causa de um esporte em comum, por causa de algo tão simples. E que, muitas vezes, por causa desse contato internacional nasceram amizades e um maior interesse em conhecer outro país, outra cultura.

A páscoa deveria ser uma festa para celebrar ressurreição de Cristo. Contudo, com o decorrer do tempo e com o capitalismo vigente, ovos de chocolate e coelhos fofos corromperam o real significado dessa data.

Creio que a mudança de postura perante essa data não tenha matado totalmente o significado que ela representa para os cristãos (estando inclusa no pacote). Pois se a boca falar do que o coração está cheio, e tivermos fé que a ressurreição existiu, esse evento nunca morrerá.

Entretanto, eu sei que muitas pessoas não creem em Jesus, nem no cristianismo, nem em crença alguma. Então acredito que a entrada do coelho da páscoa e do ovo de chocolate seja importante por esse ponto de vista.

Isso, pois, a páscoa deixa de fazer parte de um mero feriado e começa a unir as pessoas. Esse feriado acaba amolecendo o coração de muita gente pelo fato de envolver crianças, pelo fato de haver um planejamento para o esconderijo do ovo, pelo fato de haver uma preocupação se Fulano gosta de ovo crocante ou meio amargo.

Nesse período do ano, muitas pessoas no trabalho se unem para fazer amigo chocolate ou amigo ovo de páscoa. O que é bom para o relacionamento da equipe.

Em suma, independente da crença do ser humano, não há como negar que, por mais de todas as dificuldades que os brasileiros têm, nós nos unimos nessa época do ano e, assim como na copa do mundo, por causa de algo simples.

Obs.: não quero aqui matar o significado da páscoa para os cristãos, só gostaria da sua tolerância perante pessoas que são livres para escolher onde depositar a sua fé.

Bom dia.

|o falatório|

Minha avó nunca gostou que falássemos alto perto dela.

Nesse dia das mães, ocorreu algo muito interessante. A família toda estava sentada, ao redor da mesa, almoçando e conversando. Um falando com o outro. O outro com o outro. O da ponta com o da outra ponta. Havia uma salada de gente falando e, o mais interessante, entendo um ao outro. Até que a minha avó falou sua frase habitual:”mas que falatório, falem mais baixo!”. Nesse momento um olhou para o outro e respeitaram, mas não deu 10 minutos e  o “falatório” voltou.

Quando a minha avó disse:”nossa que falatório!”, eu me senti muito feliz! Fiquei contente por ver que a minha família conversa e que gosta de compartilhar as coisas que acontecem. Foi uma sensação maravilhosa ver todos conversando e um interessado tanto em expor experiência quanto em ouvir o que o outro tinha a dizer. Achei fantástico estarmos fazendo algo que para algumas famílias é tão difícil: conversar.

E então eu parei de me importar se falávamos alto. Primeiro, porque estávamos dentro de casa (falar alto na rua é estranho). Segundo, porque mostra que há uma união e que temos interesse um pelo o outro. Terceiro, porque não tememos que os outros saibam como a nós somos atrapalhados, por exemplo. Como quando a minha avó matou o Zeca Pagodinho nove vezes, sendo que quem havia morrido era o Jair Rodrigues…

Mas o principal motivo de eu não me importar, foi por ver que as pessoas que eram donas do dia, minha mãe e minha avó, estavam ganhando o presente mais bonito e que nada pode comprar: carinho.

Feliz dia das mães atrasado, mamães, e desejo a todos, pelo menos, um falatório na semana 🙂

|as algemas|

Nunca fui presa por delinquência, mas posso dizer que eu sou uma detenta.

É “engraçado” ver como as tecnologias unem mais as nossas próprias mãos e distanciam as nossas mãos das mãos de outras pessoas. Cada vez mais, o mundo nos prende em nós mesmos e nos faz dar menos valor ao que antes era sagrado.

Posso dizer que eu estou algemada, muitas vezes, pelo meu celular ou pelo controle  da televisão, o que faz de mim meio idiota, já que há tantas pessoas tentando se livrar de algemas reais e eu presa a uma invisível.

Há algemas antigas também, o relógio é uma delas. Esta prende os olhos ao pulso e regram tudo o que devemos fazer, já que tempo sempre foi dinheiro, não é mesmo?

Outras algemas que existem são aquelas as quais luto para ser presa. A primeira, é a que me prende a um lápis e que me ajuda a escrever. A segunda, é quando tenho que juntar as mãos para quebrar um ovo e poder fazer um bolo aos meus familiares. A terceira, é aquela quando junto meus braços para poder ler um bom livro. A quarta… Enfim, vocês entenderam.

Como hoje é ceia de natal, e eu estou mais uma vez presa ao meu blog, desejo que vocês criem algemas com quem vocês amam nessa data. Como se fosse aquele programa “Acorrentados”, que passava na Globo, que possamos depender somente das pessoas ao nosso redor, tirarmos assuntos do nada para falar com nossos parentes e sermos dependentes de pessoas e não tecnologias. Só por uma noite (como diria o Charlie Brown Jr.).

Uma noite abençoada para vocês e feliz natal!

|as linhas|

Certa vez comprei uma calça que estava um pouco larga, logo, tive que levar à costureira. A costureira arrumou e tals. Usei umas duas vezes, e a costura que ela tinha ‘apertado’ se desfez. Quando levei a calça à outra costurei (errar duas vezes é osso rs) ela falou um monte do trabalho da anterior, disse: “Essa mulher não sabe com que linha se costura jeans? Que trabalho horrível que ela fez, blá-blá-blá”. Falou como se eu entendesse de linha, costura e etc.

E como sou meio doidinha, comecei a pensar sobre…

Diversas vezes, a gente ou outros quebram relações e tem uma porrada de gente para encher o saco ou se intrometer. No caso da calça eram tecidos iguais a serem unidos, podemos traduzir: uma família. Uma família sempre tem problemas, mas o laço que a une deve ser forte, porque imagina se estoura a costura da parte de trás de uma calça e você está no meio do shopping, consideraria ofensivo haha. Então esse laço deve sempre estar forte e bom, para você estar bem e não se sentir sem partes.

Há também outros tipos de união ‘tecidal’, como aquela com tecidos bem distintos juntos, patchwork, onde há outro tipo de linha para juntar todos: a amizade. É engraçado de ver como a união de jeitos, opiniões e cabeças quando juntas formam uma coisa tão legal. Essa linha também pode se romper, mas dependendo do caso nem é arrumado por não fazer muita diferença na composição.

E também há aquela que causa maior polêmica quando se quebra: o rompimento de um casal. Nessa hora todo mundo é a costureira lá do início, mete o “bedelho”. Diria que esse laço tem que ser muito resistente, pois tem muuuuitos altos e baixos (ok, pensei em algo idiota, se é que me entende, caro leitor. haha). O fio pode estar firme, começar a ruir, ruir, e então vai de você levar para a costureira ou não.

Quantas linhas para se administrar, ein? E como vão as suas?