|o cabelo|

Quando criança, eu não tinha o porquê de me importar com o meu cabelo, já que ele era  tão liso que perdia todas as tiaras, tic-tacs, xuxinhas. Quando a puberdade chegou, meu cabelo tomou uma forma indefinida, era meio liso, meio enrolado, meio complicado. Na adolêscencia, tentei dar um jeito nele, fiz progressiva, hidratação, selagem. Mas passava algum tempo e ele voltava a ficar sem forma.

Nunca fui muito vaidosa, então, acabei desistindo dele. A xuxinha virou minha melhor amiga e só soltava as madeichas em ocasiões especiais como casamentos e festas. Fazia uma chapinha aqui, uma escova ali e tudo certo.

Certo dia, fui a um retiro de jovens da igreja que frequentava e uma moça falou para eu brincar com o meu cabelo. Claro que detestei a ideia, porque, para mim, quanto mais eu mexia, menos eu gostava.

E foi, aí que entendi o que eu estava fazendo de errado com o meu cabelo: eu não aceitava a forma dele. Por isso que não fazia questão de soltá-lo, de vê-lo, de dar movimento a ele.

A partir dessa descoberta, percebi que fazia o mesmo com meu meu corpo. Eu não gostava dele, não o aceitava. Então comecei a dar movimento a ele, ir à academia, fazer exercícios físicos com alguma frequência.

E disso vieram várias outras descobertas sobre a inércia em mim mesma e sobre a necessidade de me mover no sentido de me aceitar mais e, como consequência, gostar mais do que eu sou.

“Quanto mais mexe, mais fede”, talvez essa frase faça sentido quando não temos certeza do que estamos fazendo, e, como isso é uma constante, pode feder, pois são dos riscos e das incertezas que nascem grandes ideia e pessoas.

Bom dia!

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|a fala|

Indo a uma entrevista de um projeto da faculdade, comecei a conversar com um senhor. Devia ter em torno de uns 60 anos, trabalhava como aspirador de grama e usava uma máquina parecida com essa.

O nosso diálogo foi muito difícil uma vez que não entendia o que ele falava, além de incômodo, pois em vários momentos tive que pedir que repetisse alguma frase.

Não fazia sentido. “Porque que eu não consigo entender o que ele fala? Será que ele é de outra região do país? Será que nunca foi à escola? Será…? Será…? Será…?”. Não cheguei a nenhuma conclusão.

Após muita luta para trocar meia dúzia de palavras, cheguei a minha entrevista. Era para dar uma aula de matemática para organizadores de um cursinho popular.

A primeira informação foi: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Pensei: “Beleza! Vai ser tranquilo”. Comecei a minha aula.

Passados dois minutos, uma pessoa levanta a mão: “Não entendi”. Expliquei novamente. Passados 30 segundos: “Não entendi”. Expliquei de novo. E foi uma sucessão de  “Não entendi” atrás, ao lado, à frente de “Não entendi”. Até que me dei conta, eu tinha que explicar uma matéria sem introduzir essa matéria.

Fui arriscando, tentando fazer com que fosse entendida. Falhei. Parecia tão óbvio o que eu falava e como falava que esqueci da primeira informação: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Eu não tinha noção da dificuldade que eles tinham.

Após uns 500 tapas na cara, veio a análise das pessoas que me assistiram: “Você é muito ansiosa”. Então a ficha caiu. Na ânsia de me fazer entendida, esqueci com quem estava falando e então criei uma barreira de linguagem entre mim e os alunos.

Nesse quesito, eu era o senhor. Ansiosa para passar uma informação e me isolando por não conseguir fazê-la. Mas também escutei: “Você é paciente”. E vi que ansiedade e paciência andam juntam, pois quanto mais ansioso mais exercício de paciência é necessário.

Então, notei que o diálogo só acontece quando sabemos o que queremos transmitir e com qual público estamos lidando.

Boa noite!

|o cabelo|

Há tempo, li um texto sobre viajar, onde dizia que não é necessário justificar o porquê de fazer uma viagem. Se você têm dinheiro, tempo e disposição, isso é mais que suficiente para conhecer lugares novos.

Era por volta das 14h de uma segunda qualquer, liguei para a minha mãe contando a novidade: “Cortei o cabelo!”. Claro, se eu tivesse cortado “3 dedinhos” não seria motivo para ligar, não é mesmo?! “Cortei maria joão!”, disse. Ela respondeu: “você corta o cabelo curto assim e não pergunta para ninguém? Doidinha!”.

Foi interessante a reação das pessoas com o meu corte, uma mistura de espanto, surpresa, houve aqueles que não gostaram, normal. Mas, parando para pensar sobre o que fiz, noto que só rompi meu próprio padrão perdurado por uns 16 anos.

Qualquer mudança que temos chama a atenção alheia, tanto se é para nos agradar quanto para agradar ao outros. Somos observados diariamente, ninguém é invisível. Por mais que você pense que você é camuflado, alguém te vê, acredite.

Pois bem, contei somente para uma pessoa antes de cortar, cortei e estou ótima. Acredito que pedir muito conselho sobre uma vontade terá consequências somente sobre você, é pedir para permanecer no seu próprio padrão. Se tiver oportunidades, não deixe o medo dos outros estragar suas vontades.

Beijos, ter cabelo curto é ótimo ❤