|a fala|

Indo a uma entrevista de um projeto da faculdade, comecei a conversar com um senhor. Devia ter em torno de uns 60 anos, trabalhava como aspirador de grama e usava uma máquina parecida com essa.

O nosso diálogo foi muito difícil uma vez que não entendia o que ele falava, além de incômodo, pois em vários momentos tive que pedir que repetisse alguma frase.

Não fazia sentido. “Porque que eu não consigo entender o que ele fala? Será que ele é de outra região do país? Será que nunca foi à escola? Será…? Será…? Será…?”. Não cheguei a nenhuma conclusão.

Após muita luta para trocar meia dúzia de palavras, cheguei a minha entrevista. Era para dar uma aula de matemática para organizadores de um cursinho popular.

A primeira informação foi: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Pensei: “Beleza! Vai ser tranquilo”. Comecei a minha aula.

Passados dois minutos, uma pessoa levanta a mão: “Não entendi”. Expliquei novamente. Passados 30 segundos: “Não entendi”. Expliquei de novo. E foi uma sucessão de  “Não entendi” atrás, ao lado, à frente de “Não entendi”. Até que me dei conta, eu tinha que explicar uma matéria sem introduzir essa matéria.

Fui arriscando, tentando fazer com que fosse entendida. Falhei. Parecia tão óbvio o que eu falava e como falava que esqueci da primeira informação: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Eu não tinha noção da dificuldade que eles tinham.

Após uns 500 tapas na cara, veio a análise das pessoas que me assistiram: “Você é muito ansiosa”. Então a ficha caiu. Na ânsia de me fazer entendida, esqueci com quem estava falando e então criei uma barreira de linguagem entre mim e os alunos.

Nesse quesito, eu era o senhor. Ansiosa para passar uma informação e me isolando por não conseguir fazê-la. Mas também escutei: “Você é paciente”. E vi que ansiedade e paciência andam juntam, pois quanto mais ansioso mais exercício de paciência é necessário.

Então, notei que o diálogo só acontece quando sabemos o que queremos transmitir e com qual público estamos lidando.

Boa noite!

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|a venda|

Considero a vaidade acadêmica como uma venda que corrompe o ego do vaidoso e das pessoas ao seu redor.

Ontem, fui a um evento de filosofia, fugi um pouco da bolha que é minha faculdade. Lá tinham diversos vestibulandos, uns sozinhos, outros acompanhados. Havia também senhores, senhoras, curiosos. Enfim… Como boa tagarela, comecei a conversar com uma família que sentou ao meu lado. Pai, desenhista. Mãe, psicopedagoga. Filha, “futura estudante de direito da sanfran”, respondeu a mãe ao olhar para filha que estava com uma carinha apreensiva e ansiosa. Vaidade familiar.

Em meu curso a vaidade reina. Demorei um pouco a aprender como fugir de papos relacionados a colocação na turma, quem tirou a maior nota, lambeção de professor. Honestamente, talvez seja recalque por não ser nenhum deles, mas o meu sentimento é de pena para essas pessoas. Sim, pena, pois vaidade também significa vazio e eu acho que cada um dá ao mundo aquilo não aquilo que pode, mas o que tem a oferecer. Vaidade infantil.

Há também entre estudantes um outro tipo de vaidade, aquela em que a pessoa para se inserir em um grupo mente para si mesma a fim de parecer burra. “Nossa não estudei nada”, “Nossa, acho que fui mal nessa prova”, “Nossa…”. Para depois usar o mesmo argumento dizendo que foi bem na avaliação, teste, seja lá o que for. Acredito essa ser  a vaidade mais egoísta, pois cresce o seu ego destruindo aqueles que realmente tem dificuldade. Vaidade enrustida.

Por fim, o começo. Tudo começa pelo discurso daqueles que tem poder e espaço para sua oratória: pseudoprofessores, pseudo-incentivadores. Uma vez que alguém corrompe a liberdade intelectual do outro em prol de produção a curto prazo, competição exacerbada, cegueira social, inatividade criativa e repetição de conteúdo de terceiros, me sinto no direito de nomear pseudo-ser-humano. Pessoa falsa, pois quer criar na vida de terceiros aquilo que não conseguiu em sua vida.

A venda é pior que um cabresto, com este se enxerga algo, há luz; mas com aquele há a falsa ilusão de saber o que está acontecendo, já que a pessoa está perdida, vazia de visões e somente acredita naquilo que falam para ela e no que ela mesmo fala. Logo, por não verem ao seu redor, esbarram, derrubam e pisam naqueles que não conseguem ver, ou seja, todos.

Boa tarde!

 

Como se eu fosse você

Jornal IFSP - Campus Cubatão

Como se fosse pela primeira vez, olho para seu rosto e um sorriso aparece em minha face. Pego em sua mão como se fosse o Bem que mais quero carregar para sempre. Conto sobre a atuação dos jogadores no jogo do timão e você sempre finge que entende como se fosse pela primeira vez.

Como se o mundo fosse acabar, beijo-te. Pensando que hoje ou depois tudo pode sumir, escondo-me em seus braços compridos, ou talvez curtos, mas são seus braços. Às vezes, vejo-me fazendo loucuras para você sorrir e percebo que nunca fui um louco tão feliz. Simplesmente gostaria de estar com você quando o mundo fosse acabar.

Como se o tempo parasse, fico paralisado com o seu jeito de ser. Não que você agrade a todos ou que seja tão bonito aos olhos alheios quanto aos meus, é que só você me satisfaz. Com você ao meu lado…

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|as linhas|

Certa vez comprei uma calça que estava um pouco larga, logo, tive que levar à costureira. A costureira arrumou e tals. Usei umas duas vezes, e a costura que ela tinha ‘apertado’ se desfez. Quando levei a calça à outra costurei (errar duas vezes é osso rs) ela falou um monte do trabalho da anterior, disse: “Essa mulher não sabe com que linha se costura jeans? Que trabalho horrível que ela fez, blá-blá-blá”. Falou como se eu entendesse de linha, costura e etc.

E como sou meio doidinha, comecei a pensar sobre…

Diversas vezes, a gente ou outros quebram relações e tem uma porrada de gente para encher o saco ou se intrometer. No caso da calça eram tecidos iguais a serem unidos, podemos traduzir: uma família. Uma família sempre tem problemas, mas o laço que a une deve ser forte, porque imagina se estoura a costura da parte de trás de uma calça e você está no meio do shopping, consideraria ofensivo haha. Então esse laço deve sempre estar forte e bom, para você estar bem e não se sentir sem partes.

Há também outros tipos de união ‘tecidal’, como aquela com tecidos bem distintos juntos, patchwork, onde há outro tipo de linha para juntar todos: a amizade. É engraçado de ver como a união de jeitos, opiniões e cabeças quando juntas formam uma coisa tão legal. Essa linha também pode se romper, mas dependendo do caso nem é arrumado por não fazer muita diferença na composição.

E também há aquela que causa maior polêmica quando se quebra: o rompimento de um casal. Nessa hora todo mundo é a costureira lá do início, mete o “bedelho”. Diria que esse laço tem que ser muito resistente, pois tem muuuuitos altos e baixos (ok, pensei em algo idiota, se é que me entende, caro leitor. haha). O fio pode estar firme, começar a ruir, ruir, e então vai de você levar para a costureira ou não.

Quantas linhas para se administrar, ein? E como vão as suas?