|a extensão|

A maioria das pessoas possuem vícios de linguagem. Alguns falam “é…, é…,é….”, outros “né…, né…, né…”. Mas, esses dias, assisti uma palestra de um homem que tinha a mania de falar “puta”.

Em casa, foi comprada uma extensão de tomada e, quem já foi ao mercado comprar uma dessa, sabe que aquela que tem entrada para dois pinos é mais barata do que com três. A de casa tem dois pinos.

No desenrolar da palestra do homem, ele começou a se mostrar uma pessoa muito especial. Começou a contar suas dificuldades, suas conquistas e, principalmente, passou humildade em sua fala, mesmo sendo alto cargo de multinacional.

Usando a extensão, o encaixe para os pinos do plug se soltou, e descobri que retirando essa peça, ela ficava com três entradas de pino. (Segue imagem). Ou seja, ela dependia de adaptadores para ser usada, mas agora só ela basta.

Ou seja, a extensão se tornou mais extensa do que realmente era pela descoberta de seus atributos. O palestrante se tornou mais especial do que seu vício de linguagem. Então não se subestime achando que se conhece o suficiente, pois cada momento que passa podemos estender ainda mais o que acreditamos não ser.

Além disso, não subestime os outros na sua superficialidade, porque é nesse momento que você perde a oportunidade de crescer escutando o que essa pessoa tem a dizer e de obter um conhecimento que você nem sabia que era possível.

Boa tarde.

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|o cabelo|

Quando criança, eu não tinha o porquê de me importar com o meu cabelo, já que ele era  tão liso que perdia todas as tiaras, tic-tacs, xuxinhas. Quando a puberdade chegou, meu cabelo tomou uma forma indefinida, era meio liso, meio enrolado, meio complicado. Na adolêscencia, tentei dar um jeito nele, fiz progressiva, hidratação, selagem. Mas passava algum tempo e ele voltava a ficar sem forma.

Nunca fui muito vaidosa, então, acabei desistindo dele. A xuxinha virou minha melhor amiga e só soltava as madeichas em ocasiões especiais como casamentos e festas. Fazia uma chapinha aqui, uma escova ali e tudo certo.

Certo dia, fui a um retiro de jovens da igreja que frequentava e uma moça falou para eu brincar com o meu cabelo. Claro que detestei a ideia, porque, para mim, quanto mais eu mexia, menos eu gostava.

E foi, aí que entendi o que eu estava fazendo de errado com o meu cabelo: eu não aceitava a forma dele. Por isso que não fazia questão de soltá-lo, de vê-lo, de dar movimento a ele.

A partir dessa descoberta, percebi que fazia o mesmo com meu meu corpo. Eu não gostava dele, não o aceitava. Então comecei a dar movimento a ele, ir à academia, fazer exercícios físicos com alguma frequência.

E disso vieram várias outras descobertas sobre a inércia em mim mesma e sobre a necessidade de me mover no sentido de me aceitar mais e, como consequência, gostar mais do que eu sou.

“Quanto mais mexe, mais fede”, talvez essa frase faça sentido quando não temos certeza do que estamos fazendo, e, como isso é uma constante, pode feder, pois são dos riscos e das incertezas que nascem grandes ideia e pessoas.

Bom dia!

|o quarto|

Em 2009, abri mão do meu quarto durante alguns meses.

Não tinha noção de quão ruim era ficar sem quarto. Entrava nele umas 20h para pegar minhas coisas para o dia seguinte e escolhia minuciosamente os livros que iria precisar para a escola, a roupa que usaria quando chegasse em casa, os sapatos… Sempre esquecia alguma coisa, acabava ficando sem.

Até que, em determinado ponto, isso virou rotina. Já sabia o que iria precisar para determinado dia da semana. Tudo estava resolvido. Tão bem resolvido que aprendi a dar valor não só ao meu quarto, mas ao serumaninho que estava morando nele, meu avô.

De um período de abstinência de meu cantinho, acabei ganhando outro espaço, um pedacinho no coração de meu avô. Um homem sério para quem não o conhecia, mas com um coração enorme.

A partir daí, eu invadi seu espaço, errei em suas palavras cruzadas, tirei-o de casa para assistir filmes e acabei descobrindo que tínhamos muito em comum. Ele me apresentou a livros, a lugares diferentes, a pessoas incríveis, às regras de etiqueta e me deu presentes inestimáveis.

Hoje, em 2017, eu abro mão da vida dele pelas lembranças que ele me proporcionou.

Agradeço a Deus pela sabedoria de ter reconhecido a tempo o quão valioso ele era, pois não vejo um momento que não tenha apreciado sua presença. Nos dávamos sempre bem? Não! Mas, se quer alguém que só concorde, converse com um espelho, pixuleco.

E assim, pude conhecê-lo tanto a ponto de saber a música que queria em seu último momento antes do calor. A ponto de não sofrer tanto com sua partida. A ponto de entender que um dia sem ele ler jornal, não era um dia que valia ser vivido.

Fim.

|o clipes|

Certa vez, peguei um clipes que estava no meio das coisas da minha irmã e comecei a usar. Mas, devo explicar que não era um simples clipes. Ele veio de Itu, só pode, já que era enorme.

Um arrependimento muito grande me bateu quando usei esse “querido” clipes, pois ele marcou todas as folhas que estavam presas de tal maneira que viraram folhas de rascunho.

Se considerarmos que nós somos as folhas e o clipes é o motivo, podemos dizer que nos unimos a diferentes pessoas por causa de diferentes motivos. Então, o motivo de nos unirmos às outras pessoas modificam o que somos.

Por vezes, tomamos o motivo pelo qual nos juntamos aos outros tão grandioso que nos machucamos. Por exemplo, quando nos unimos aos outros por causa de um problema e, com o tempo, você ainda acredita na relevância dele, mas as outras pessoa não, então você se machuca.

Já em outros momentos, acreditamos que um motivo mínimo é o suficiente para nos unir a muitas outras pessoas, e acabamos nos perdendo. Como é o caso de uma passeata que não dá certo pela pauta não ser tão promissora.

Contudo, felizmente há o caso em que o clipes é do tamanho certo e deixa a marca certa nas pessoas. Isso é o que eu chamo de amizade, já que prende mas não aprisiona, já que marca mas não machuca.

Você tem sido preso pelos clipes certos?

Boa tarde!

|o (des)entendimento|

Até o primeiro ano do ensino médio, não entendia a malícia envolvida por trás da música sabão crá-crá. Sim, imaginava uma sacola de mercado com cabelos dentro! Acredite se quiser.

Nunca fui muito rápida para entender tais entrelinhas: malícia, ironia, sarcasmo. Isso é bom por um lado, porque eu não fico triste ou envergonhada (a ignorância é um benção). Mas, por outro lado, é terrível, pois sou motivo de chacota e perco um pouco a noção de como lidar com as pessoas.

Estávamos eu e uma amiga em frente ao nosso colégio. De repente sentou ao nosso lado uma garota da turma. Ela começou a reclamar sobre suas amigas, que elas eram isso, eram aquilo… Passados 15 minutos de desabafo, ela foi embora. Olhei para a cara da minha amiga e falei:”Que feio! Isso que elas são amigas!”. Minha amiga com o maior entendimento do mundo falou:”Lu, ela está nervosa, não tem nem noção do que está falando. Daqui a pouco elas voltam a se falar”.

Na hora, fiquei menor do que já sou. Parei de pensar sobre falsidade e comecei a pensar sobre como eu queria ter esse entendimento da minha amiga, para poder errar menos e parar de falar alguns preconceitos de quem não sabe ler entrelinha.

Muitas vezes, as coisas estão acontecendo ao nosso redor, mas nós só estamos vendo aquilo que nos convêm, não dando conta que nem tudo é o que vemos. Acho isso complexo, mas nada que um treino diário não possa clarear essa entrelinha em Arial 4.

Boa tarde.

|a fala|

Indo a uma entrevista de um projeto da faculdade, comecei a conversar com um senhor. Devia ter em torno de uns 60 anos, trabalhava como aspirador de grama e usava uma máquina parecida com essa.

O nosso diálogo foi muito difícil uma vez que não entendia o que ele falava, além de incômodo, pois em vários momentos tive que pedir que repetisse alguma frase.

Não fazia sentido. “Porque que eu não consigo entender o que ele fala? Será que ele é de outra região do país? Será que nunca foi à escola? Será…? Será…? Será…?”. Não cheguei a nenhuma conclusão.

Após muita luta para trocar meia dúzia de palavras, cheguei a minha entrevista. Era para dar uma aula de matemática para organizadores de um cursinho popular.

A primeira informação foi: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Pensei: “Beleza! Vai ser tranquilo”. Comecei a minha aula.

Passados dois minutos, uma pessoa levanta a mão: “Não entendi”. Expliquei novamente. Passados 30 segundos: “Não entendi”. Expliquei de novo. E foi uma sucessão de  “Não entendi” atrás, ao lado, à frente de “Não entendi”. Até que me dei conta, eu tinha que explicar uma matéria sem introduzir essa matéria.

Fui arriscando, tentando fazer com que fosse entendida. Falhei. Parecia tão óbvio o que eu falava e como falava que esqueci da primeira informação: “Fingiremos ser de uma turma de escola pública muito defasada”. Eu não tinha noção da dificuldade que eles tinham.

Após uns 500 tapas na cara, veio a análise das pessoas que me assistiram: “Você é muito ansiosa”. Então a ficha caiu. Na ânsia de me fazer entendida, esqueci com quem estava falando e então criei uma barreira de linguagem entre mim e os alunos.

Nesse quesito, eu era o senhor. Ansiosa para passar uma informação e me isolando por não conseguir fazê-la. Mas também escutei: “Você é paciente”. E vi que ansiedade e paciência andam juntam, pois quanto mais ansioso mais exercício de paciência é necessário.

Então, notei que o diálogo só acontece quando sabemos o que queremos transmitir e com qual público estamos lidando.

Boa noite!

|a doação de sangue|

Acredito que muitos que me acompanham em rede social sabem que doou sangue há um tempo, contudo o que nunca contei é que meu sangue sai mais lentamente até a bolsa do que o de outras pessoas.

Dia desses, entrosei com um grupinho para fazer a doação. Fui a primeira a entrar na sala de coleta, mas não a primeira a sair, é claro. Um dos moços que estava no grupo, começou depois de mim e saiu antes do que eu. Surpreendi-me, mas fiquei deitadinha pensando na vida, afinal, cada corpo tem seu ritmo.

Desse fato tão mínimo, veio uma big retrospectiva do meu ano na minha cabeça.

Esse ano que, graças a Deus, está acabando, teve seus altos, baixos, médios e cinco bolas. Acredito que tenha sido um dos anos mais difíceis da minha vida. Contudo, devo admitir que eu coloquei uma intensidade nas coisas maior do que elas tinham. Eu competi com os outros ao invés de competir comigo mesma.

Entretanto, de todas as dificuldades que encarei, acredito que o saldo foi muito positivo, pois aprendi que tenho limites, e que mais importante de saber que eles existem é respeitá-los.

Eu podia ter apertado mais forte a *”hemácia gigante” para ver se saía sangue mais rápido de mim, mas não ia adiantar nada (como não adiantou para outro moço que estava com o mesmo problema que eu na doação). Respeitei meus limites.

Nesse ano, eu tive que abdicar de bastantes coisas para poder ter saúde. Tive que aceitar que muitas vezes cinco bolas vem de cinco colas, e que não preciso participar dessa sujeira para me formar um dia. Aprendi a lidar com uma doença psíquica dada em um amigo. Quase virei corretora de imóveis. Cresci em fé. Respeitei meus limites.

É frustante aceitar que o seu ritmo mental e físico não é o mesmo do que é exigido nas suas escolhas. Todavia, aceitar que você tem um corpo e saúde únicos e adequar as suas escolhas ao seu ritmo é sabedoria.

O que eu desejo para você que me segue nesse blog é um final de ano sábio e um 2017 maravilhoso, porque os dias desse ano podem ter sido uma choradeira, mas os dias que estão por vir pode ser de pura alegria (como os meus estão sendo atualmente).

Um grande beijo e obrigada pelo carinho de todos esse ano!

Ps.: doe sangue, salve vidas!

*hemácia gigante – durante a doação as enfermeiras dão um objeto para ficar apertando, nesse dia elas deram uma hemácia gigante.