|a permissão|

Um domingo qualquer com meu avô na mesa do almoço comendo macarrão. Não sei por que, mas ele quis colocar comida em meu prato.

– Não precisa, deixa que eu coloco! – eu disse.

– Você precisa aprender a ser servida, garota. – respondeu ele.

Sendo muito elétrica e prestativa, sempre fui muito orgulhosa para deixar que os outros me servissem ou me fizessem coisas que poderia fazer sozinha. Pensamento egoísta do “eu consigo fazer tudo”, mas a vida ensina…

Para se permitir ser servida você precisa confiar nos outros, o que não é fácil. Em projetos pessoais, só cedi quando notei que várias pessoas juntas produziam coisas muito melhores do que eu somente. O primeiro passo foi dado.

Não sendo o bastante deixar o orgulho de lado e compartilhar as coisas, Deus chegou e disse: “Senta aqui… Vamos conversar… Você vai morar em um hotel por um tempo”. No mesmo instante veio “Você precisa aprender a ser servida, garota”, uma grande oportunidade para tal.

Faz exatamente uma semana que estou aqui. Tudo é lindo e maravilhoso, mesmo achando estranho não ter que fazer muita coisa de limpeza ou comida. Além disso, convivo com pessoas  de realidades bem diferentes da minha e tenho aprendido muito com tudo isso. O diferente é sempre um susto.

Gostaria de poder contar para meu avô que, na marra, estou me permitindo ser servida, porque, em boa parte, foi ele que me ensinou que no hotel não se come apenas pão com frios.

Tenham um bom dia e se permitam àquilo que é difícil para vocês. 🙂

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|a pausa|

Era 2005, quinze minutos da internet discando para conectar, trinta minutos para jogar no fliperama.com. Sempre que estava avançando de nível, minha mãe pedia para eu sair do computador, porque já era dado o tempo combinado.

“Deixa eu passar desse nível, mãe, por favor!”. “Desliga agora!” – ela dizia. Se eu não desligasse, era simples, ela retirava o equipamento da tomada. Parecia o final do jogo, mas, na verdade, era só uma pausa. No dia seguinte, haveria mais trinta minutos.

Torcer o pé, quebrar um osso, perder um amigo, ter uma doença, ou, até mesmo, uma dor de cabeça é uma pausa. Não que seja o que desejamos, mas é o que nos faz parar um pouco a nossa rotina para avaliar o que estamos fazendo conosco.

Para a maioria das pessoas é surreal parar alguns minutos para sentir seu próprio corpo, suas batidas de coração, analisar o contorno de suas mãos. Isso só é feito quando algo acontece e paramos para pensar no porquê estamos aqui e agora.

Nesse mundo corrido que vivemos, é difícil dar uma pausa às nossas preocupações e simplesmente nos sentir. Contudo, deixo aqui anotado que preocupações e problemas sempre existirão. Permita-se pausar e perceber quão bom é o que tem ao redor, pois sempre tem algo que vale a pena prestar atenção.

Agora, nas festas de final de ano, e no próximo ano, ame-se mais e as pessoas ao seu redor, acredite no seu potencial e em tudo que pode alcançar. Relaxar é permitir pausar sua rotina em prol de se querer bem, caso contrário, o tempo voa e não haverá ninguém para te desligar da tomada.

Boas festas e obrigada por todo carinho ❤

 

|a zumba|

Todas as coisas que recebo para fazer tento realizar da maneira que julgo a melhor possível. Trabalhos de faculdade, faxinas, costuras, artesanatos, comidas e assim vai… Até o dia em que conheci a zumba.

A primeira aula foi um desastre. Faltou ritmo, fôlego, animação e o principal: coordenação motora. Tentava imitar os professores com perfeição, tanto é que copiava os sinais que eram de instrução para dançar. Claro que os professores me zoavam, é óbvio.

Parecendo a tia da zumba do Youtube, perseverei e continuei tentando. A cada aula, uma luta para mexer os braços e pernas no ritmo mesmo sem sucesso. Comecei a me achar lesada por não acompanhar os passos. Quando acertava o movimento do braço, esquecia o da perna e quando acertava a perna, esquecia de andar para a direita.

Então, chegou o momento em que comecei a me divertir da situação. Eu errava o passo e ria de mim mesma pela cena idiota que estava fazendo. A aula começou a ficar mais leve e engraçada, já que os professores riam também, o que eu não via mal algum. E assim foi minha aceitação com a zumba.

Uma das poucas vezes que tentei me superar para ser boa em algo e que deixei para lá para poder me divertir. Meu corpo agradeceu, minha mente sorriu e, se o plano era desestressar, missão cumprida com sucesso!

Boa noite 🙂

 

|a prateleira do mercado|

Sonhando alto de pés vestidos, comecei a me cobrar de muitas coisas. Iniciei uma corrida contra mim mesma, uma guerra interna para me superar do que já era bom.

Luana criança gostava de algo que gosta até hoje, arrumar prateleiras do mercado, chegando até a entregar currículo para ser repositora. Um amigo me perguntou: “nossa, você está passando fome?”, não, não estava, só queria ser repositora, poderia ser a minha chance.

Um curso renomado em uma faculdade reconhecida dá a falsa ilusão de que você precisa ganhar um milhão de reais antes dos seus 30 anos, pura vaidade. Não se cobre tanto assim, cada pessoa tem um perfil para ser algo, e talvez o seu não seja esse.

Sonhando alto de pés nus, amei-me nua. Despi-me de rótulos, de anseios, e, principalmente de medos de não conseguir “chegar lá”. Lá aonde? Querido, sinto em lhe dizer, o “lá” é aqui e agora. Na ânsia de chegar no “lá”, perdemos a viagem e o brilho no olho, perdemos o foco no presente.

Independente do que digam, do que planejem e do que você almeja, lembre sempre que você não precisa se cobrar tanto. O que você precisa, independente da situação, é do que existe aqui e agora, pois só com esses aparatos você consegue mudar a sua condição atual.

Não se cobre tanto, você vale muito mais do que pensa.

Boa noite!

|a estrelinha|

“Você pode ver se minha estrelinha está reta?” foi uma das frases mais repetidas da minha infância.

Seguindo meu sonho e me espelhando em grandes atletas, comecei a fazer aulas de ginástica olímpica e correr atrás do meu ideal a cada aula. Até o dia em que caí duplamente do cavalo: do aparelho e da minha realidade, e percebi que não queria ser ginasta, só queria fazer uma estrelinha reta.

Vida que segue e traumas que ficam, comecei a me fechar pouco a pouco e cresci o “eu” em vista do “nós”, coisa que adolescentes fazem geralmente. Não fui de compartilhar planos ou mostrar projetos, tive problemas de roubo de ideias no fundamental, chegando a sair de sala chorando por me sentir traída. Tinha convicção que a estrelinha estava reta e que ninguém tinha nada a ver com isso.

Na busca de desafios, ganhei poder para liderar um grupo e de brinde veio o medo de ter que lidar com pessoas e ferir alguém. Então, andei para trás na chance de pegar impulso, reaprendendo que não adianta acreditar que a sua estrelinha está reta se é impossível visualizar todos os ângulos com seus próprios olhos. Não dava para fazer tudo sozinho e, mesmo receosa, conjuguei “nós”.

Hoje, ainda dou estrelinha, mas a parte mais legal é que tem um grupo junto comigo fazendo a mesma coisa, lindo de se ver. Algumas vezes esquecemos de perguntar se ela está reta, aprendemos pela dor a endireitar, mas sempre mantendo e crescendo o brilho que temos a quem acreditamos brilhar e fazer a diferença. Não somos e nem queremos ser ginastas.

Tropeçando em passos curtos para trás para pegar impulso, aprendi mais do que correndo sozinha na tentativa de dominar o mundo. Sigo na luta para chegar em algum lugar que não sei qual é, mas tendo certeza que tem saldo muito mais positivo nós juntos do que eu somente.

Boa noite.

|a casquinha do machucado|

É bastante comum crianças e adultos arrancarem as casquinhas dos machucados. Dá tanto prazer tirar aquela pele preta e espessa, mesmo que demore para sarar, dá prazer.

Faço parte de uma geração cobaia da influência demasiada de tecnologia. Um grupo com alto potencial, mas muita ansiedade envolvida. Talvez sejamos mais sensíveis por ter tantas ferramentas na mão, e pouca instrução de onde podemos ir com tudo isso.

Arrancamos sem dó nossas casquinhas, e, mesmo quando não queremos, algumas pessoas dizem: “Nossa que delícia seria arrancar essa pele!”. Pela tentação, vamos e fazemos. Talvez sejamos mais fracos e queiramos tudo para ontem, mas isso não nos diminui quanto seres humanos que somos.

Nossa geração é diferente, é aflita, quer mudanças que nossos pais asseguram não acontecer. Nossa geração sabe que ficará com cicatriz retirando a pele, e mesmo assim o faz, porque é normal, é prazeiroso. Nossa geração, tem problemas como todas as outras, mas é chamada de “geração mimimi”. Nossa geração precisa de ajuda.

Parece que anterior à nosso grupo, as pessoas eram mais fortes e mais decididas. Hoje, somos diferentes, por isso precisamos aceitar e saber lidar com as atuais necessidades de cada um. Cada um tem seu pessimismo próprio e difundir o seu nos outros não é fazer o outro mais sucetível à sociedade, é matar lentamente uma esperança.

Ontem, hoje e amanhã, continuaremos sendo seres humanos carentes, com feridas e marcas, e a melhor maneira da casquinha não ser arrancada é amando a si e ao próximo, assim, não haverá sangue e as dúvidas e medos passarão.

Ame e transmita amor.

|a mancha da calçada|

Movida pela pressa de chegar e o medo de cair pelas ruas esburacadas que me levam até a faculdade, sempre andei olhando para o chão. Conheço cada buraco, cada pedrinha, cada mancha na calçada…

Sempre muito ingênua para conectar informações, jamais havia pensado no que causaria as manchas nas calçadas, até que hoje, mais do mesmo, me deu um estralo de olhar para cima. Encontrei a felicidade: um pé de amora.

Mas como felicidade de ansioso dura pouco, notei que as mais gordas e pretas estavam no alto, e como minha altura não facilita, comi umas três que conseguir alcançar. Não satisfeita e quase pedindo uma escada para alguém, pensei em chacoalhar os galhos. Obtive mais manchas no corpo do que sucesso, mas comi mais umas cinco.

Continuei meu caminho para casa de cabeça baixa, mas preparada para olhar acima assim que visse uma mancha no chão. E, como é mudando de ação que as coisas vêm, encontrei mais um pé de amora só que pequeno. Fiz-me, comi e ainda trouxe para casa. Felicidade.

Não é fácil mudar o ponto de vista quando se faz mais do mesmo todo dia. Antes, eu era somente parte da calçada, fria, inerte e esperando algo acontecer. Hoje, consegui ser parte da situação, dividindo comida com passarinhos e procurando alimentos que fossem melhores ao paladar.

Muitas vezes, queremos fazer parte de algo, mas não conseguimos relacionar o que somos e o que querem de nós, mas, talvez, levantar a cabeça, olhar ao redor e tomar uma ação pode fazer toda a diferença.

Bom dia!