|a estrelinha|

“Você pode ver se minha estrelinha está reta?” foi uma das frases mais repetidas da minha infância.

Seguindo meu sonho e me espelhando em grandes atletas, comecei a fazer aulas de ginástica olímpica e correr atrás do meu ideal a cada aula. Até o dia em que caí duplamente do cavalo: do aparelho e da minha realidade, e percebi que não queria ser ginasta, só queria fazer uma estrelinha reta.

Vida que segue e traumas que ficam, comecei a me fechar pouco a pouco e cresci o “eu” em vista do “nós”, coisa que adolescentes fazem geralmente. Não fui de compartilhar planos ou mostrar projetos, tive problemas de roubo de ideias no fundamental, chegando a sair de sala chorando por me sentir traída. Tinha convicção que a estrelinha estava reta e que ninguém tinha nada a ver com isso.

Na busca de desafios, ganhei poder para liderar um grupo e de brinde veio o medo de ter que lidar com pessoas e ferir alguém. Então, andei para trás na chance de pegar impulso, reaprendendo que não adianta acreditar que a sua estrelinha está reta se é impossível visualizar todos os ângulos com seus próprios olhos. Não dava para fazer tudo sozinho e, mesmo receosa, conjuguei “nós”.

Hoje, ainda dou estrelinha, mas a parte mais legal é que tem um grupo junto comigo fazendo a mesma coisa, lindo de se ver. Algumas vezes esquecemos de perguntar se ela está reta, aprendemos pela dor a endireitar, mas sempre mantendo e crescendo o brilho que temos a quem acreditamos brilhar e fazer a diferença. Não somos e nem queremos ser ginastas.

Tropeçando em passos curtos para trás para pegar impulso, aprendi mais do que correndo sozinha na tentativa de dominar o mundo. Sigo na luta para chegar em algum lugar que não sei qual é, mas tendo certeza que tem saldo muito mais positivo nós juntos do que eu somente.

Boa noite.

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|a casquinha do machucado|

É bastante comum crianças e adultos arrancarem as casquinhas dos machucados. Dá tanto prazer tirar aquela pele preta e espessa, mesmo que demore para sarar, dá prazer.

Faço parte de uma geração cobaia da influência demasiada de tecnologia. Um grupo com alto potencial, mas muita ansiedade envolvida. Talvez sejamos mais sensíveis por ter tantas ferramentas na mão, e pouca instrução de onde podemos ir com tudo isso.

Arrancamos sem dó nossas casquinhas, e, mesmo quando não queremos, algumas pessoas dizem: “Nossa que delícia seria arrancar essa pele!”. Pela tentação, vamos e fazemos. Talvez sejamos mais fracos e queiramos tudo para ontem, mas isso não nos diminui quanto seres humanos que somos.

Nossa geração é diferente, é aflita, quer mudanças que nossos pais asseguram não acontecer. Nossa geração sabe que ficará com cicatriz retirando a pele, e mesmo assim o faz, porque é normal, é prazeiroso. Nossa geração, tem problemas como todas as outras, mas é chamada de “geração mimimi”. Nossa geração precisa de ajuda.

Parece que anterior à nosso grupo, as pessoas eram mais fortes e mais decididas. Hoje, somos diferentes, por isso precisamos aceitar e saber lidar com as atuais necessidades de cada um. Cada um tem seu pessimismo próprio e difundir o seu nos outros não é fazer o outro mais sucetível à sociedade, é matar lentamente uma esperança.

Ontem, hoje e amanhã, continuaremos sendo seres humanos carentes, com feridas e marcas, e a melhor maneira da casquinha não ser arrancada é amando a si e ao próximo, assim, não haverá sangue e as dúvidas e medos passarão.

Ame e transmita amor.

|a mancha da calçada|

Movida pela pressa de chegar e o medo de cair pelas ruas esburacadas que me levam até a faculdade, sempre andei olhando para o chão. Conheço cada buraco, cada pedrinha, cada mancha na calçada…

Sempre muito ingênua para conectar informações, jamais havia pensado no que causaria as manchas nas calçadas, até que hoje, mais do mesmo, me deu um estralo de olhar para cima. Encontrei a felicidade: um pé de amora.

Mas como felicidade de ansioso dura pouco, notei que as mais gordas e pretas estavam no alto, e como minha altura não facilita, comi umas três que conseguir alcançar. Não satisfeita e quase pedindo uma escada para alguém, pensei em chacoalhar os galhos. Obtive mais manchas no corpo do que sucesso, mas comi mais umas cinco.

Continuei meu caminho para casa de cabeça baixa, mas preparada para olhar acima assim que visse uma mancha no chão. E, como é mudando de ação que as coisas vêm, encontrei mais um pé de amora só que pequeno. Fiz-me, comi e ainda trouxe para casa. Felicidade.

Não é fácil mudar o ponto de vista quando se faz mais do mesmo todo dia. Antes, eu era somente parte da calçada, fria, inerte e esperando algo acontecer. Hoje, consegui ser parte da situação, dividindo comida com passarinhos e procurando alimentos que fossem melhores ao paladar.

Muitas vezes, queremos fazer parte de algo, mas não conseguimos relacionar o que somos e o que querem de nós, mas, talvez, levantar a cabeça, olhar ao redor e tomar uma ação pode fazer toda a diferença.

Bom dia!

|o bilhete do metrô|

Chego em São Paulo de mala e cuia após uma semana densa. Entro no metrô confiante de que tinha R$4,00 no meu bilhete único. Tenho R$3,00 e 50 centavos de moeda, nada mais. Olho para os lados, um calor sobe e aquece meu rosto. Vou à saída da bilheteria e peço por ajuda. Descabelada, suada, cheia de mala. Consigo 50 centavos e vou ao guichê para carregar o bilhete. A máquina come o meu dinheiro.

Desespero, mas sigo em frente. Pergunto ao homem do guichê como proceder: “Liga na empresa do bilhete único que um dia eles te ressarcem”. Precisava voltar para casa logo, talvez esse não fosse o melhor conselho. Acabo falando com o segurança da estação, ele olha para minha camiseta da universidade, verifica meu cartão, me dá acesso.

Quase chorando pelo nervoso, subo a escada infinita da estação e durante esse momento percebo que a máquina que comeu o meu dinheiro também aceitava cartão de débito.

Tenho aprendido sobre como me organizar para lidar com tantas tarefas diárias que criei para mim e, após esse episódio, percebi o quão importante é enxergar todas as possibilidades para se resolver um problema. A faculdade até que colabora para tal, mas o melhor professor é a vida.

Sigo em desenvolvimento e constante manutenção.

Bom dia 🙂

|as experiências|

Até pouco tempo não sabia que parte da minha ansiedade se dá por experiências, tanto as que tive, quanto as que não tive.

Nesse mundo tecnológico, em que sabemos tudo da vida dos outros, é díficil não se cobrar por querer fazer coisas, e não poder; parece aos outros as coisas são mais fáceis. O mais saudável seria aprender a aceitar as experiências de outras pessoas e aprender com isso para saber o que fazer quando chegar a sua hora. O problema é saber esperar chegar a sua hora…

Por outro lado, vemos pessoas passando por situações que já temos conhecimento, até tentamos ajudar, mas sem muito êxito. O ser humano é muito capaz para aceitar conselhos, então só pensamos:”a vida ensina!”. Mas, sabe, às vezes a vida surpreende e não ensina nada. A pessoa nunca passará pela experiência que você passou, e se passar, não muda em nada, pois o sentimento do que houve é pessoal e intrasferível.

No final das contas, o plano é se aceitar e ver que todo dia é uma nova chance para conquistarmos mais experiências, seja ela conhecer lugares ou conhecer pessoas que vemos diariamente e nem damos bom dia. O plano é se permitir enxergar que as oportunidades são diferentes para cada um e que não é por acaso que você e eu nos encontramos onde estamos.

Amadurecer é preciso.

Bom dia 🙂

 

 

|a parede de vidro|

Quando vi que precisava mudar de casa, meus olhos começaram a olhar diferente para as residências da região.

Dentre elas, havia uma que considerava especial: um prédio todo colorido perto da faculdade. Sendo que o que mais me atraía era a cozinha, que tinha uma parede de vidro que dava para a rua. Ficava imaginando como seria acordar com toda aquela luz dentro de casa, deveria ser ótimo.

Assim que encontrei a dupla que moraria comigo, começamos a procurar a casinha. E foi então que tive que abrir mão da minha parede de vidro e todos o momentos que eu criei na minha cabeça ao me mudar para um lugar nem perto nem semelhante aquele.

Parece que a vida surpreende a gente, não é mesmo? Eu queria tanto aquela cozinha, que acabei ganhando uma varanda na casa nova! Nela coloco minhas filhas (vulgo plantas), saio para tomar um ar e consigo uma luminosidade ótima dentro de casa.

Pois é… A vida mostra que vai além do limites, mesmo que transparentes, que impomos àquilo que acreditamos.

Acredite.

Bom dia!

 

|o lagostim|

Falo que estou enjoada de Master Chef, mas é só ver a Paola Carosella que cedo.

Essa semana, no programa culinário, os participantes tinham que limpar lagostins. Claro, foi aquela loucura, as câmeras quase me deixando vesga de tanto que rodavam pelo estúdio.

Ao final, a conferência do trabalho de todos. Dois participantes haviam limpado perfeitamente os crustáceos, um ganhou e outro não. Por quê? Uma pessoa havia arrumado os lagostins por ordem de tamanho no suporte, e a outra apenas limpou e colocou de qualquer jeito no local indicado.

Parece simples, mas os detalhes fazem a diferença. E, uma vez que não há uma regra de desempate pré-estabelecida para as coisas que fazemos, acredito que conseguir olhar nossa produção como um consumidor nos faz ter uma maior noção de como produzir algo melhor para o todo.

É o lema: “faça bem feito para fazer apenas uma vez”.

Bom dia 🙂