|a reinvenção|

Reinventar-se não é nada mais nada menos do que ser persistente mudando as estratégias.

Sempre gostei de trabalhos manuais, apostando na minha criatividade e autocrítica do que fazia. Não precisava da aceitação dos outros quanto ao meu trabalho, somente o meu julgamento bastava, pois o esforço era meu.

Durante bastante tempo usei recicláveis, tanto é que já era conhecida no local de reciclagem do prédio. Adorava pegar tampas de refrigerante, embalagens de xampo, os vidros de geleia eram os melhores! Que tempo bom de sucata!

Passado alguns anos, eu queria criar estruturas. Ainda gostava dos recicláveis, mas precisava comprar alguns ítens. Palitos de sorvete. Algo melhor que eles para fazer uma sapateira?

Peguei meus conhecimentos da faculdade e apliquei na prática. Fiz desenhos tortos e medidas imprecisas. Hoje, tenho uns 10 pares de sapato guardados na sapateira. Ela não parece confiável, mas nunca me deixou na mão.

Reinventar o uso do palito de sorvete, reinventar os materiais que usava, reinventar-me em escolhas e decisões. Por mais que pareça que a sapateira vai cair, ela está de pé há um ano. E aceito o medo das pessoas em chegar perto, pois ela não tem uma aparência rígida.

Diversas frustrações, medos, inseguranças me rodeiam por esses tempos. Mas… Sabe… Do chão a sapateira não passa. Pego os palitos bons e os reaproveito. Pego os ruins e os substituo. Uso rebites ao inves de cola quente. Reinvento a roda e aceito que quando se está no fundo poço, a única alternativa é subir.

Bom dia!

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|as cores|

Fui uma criança bastante levada. Muita criatividade com energia me fizeram uma das crianças mais arteiras da família. Tentava entender porque eu era diferente, nunca obtive sucesso em respostas.

Na adolescência, era muito estudiosa e crítica. Fazia minha mãe ir diversas vezes à escola por causa de professores. Os outros alunos não ligavam muito. Tentava entender porque eu era diferente, nunca obtive sucesso em respostas.

No período do cursinho, era bastante dedicada às minhas metas. Impressionava-me com pessoas que propagavam um sonho e desistiam dele. Não abria mão do meu sonho por nenhuma ocasião. Tentava entender porque eu era diferente, nunca obtive sucesso em respostas.

No começo da faculdade, fiz de tudo para obter notas altas, vida social e uma saúde mental. Não consegui alcançar essas coisas com a facilidade que outras pessoas da turma conseguiram. Tentei entender porque eu era diferente, nunca obtive sucesso em respostas.

Recentemente, o médico disse que sou daltônica leve. Parei, e comecei a notar que a vida toda eu queria me ver nos outros, eu me esforçava para isso, porque na minha cabeça era uma questão de persistência. Hoje, consigo ver que não adianta eu tentar entender porque eu sou diferente, nunca obterei sucesso em respostas.

Boa tarde.

|o quarto|

Em 2009, abri mão do meu quarto durante alguns meses.

Não tinha noção de quão ruim era ficar sem quarto. Entrava nele umas 20h para pegar minhas coisas para o dia seguinte e escolhia minuciosamente os livros que iria precisar para a escola, a roupa que usaria quando chegasse em casa, os sapatos… Sempre esquecia alguma coisa, acabava ficando sem.

Até que, em determinado ponto, isso virou rotina. Já sabia o que iria precisar para determinado dia da semana. Tudo estava resolvido. Tão bem resolvido que aprendi a dar valor não só ao meu quarto, mas ao serumaninho que estava morando nele, meu avô.

De um período de abstinência de meu cantinho, acabei ganhando outro espaço, um pedacinho no coração de meu avô. Um homem sério para quem não o conhecia, mas com um coração enorme.

A partir daí, eu invadi seu espaço, errei em suas palavras cruzadas, tirei-o de casa para assistir filmes e acabei descobrindo que tínhamos muito em comum. Ele me apresentou a livros, a lugares diferentes, a pessoas incríveis, às regras de etiqueta e me deu presentes inestimáveis.

Hoje, em 2017, eu abro mão da vida dele pelas lembranças que ele me proporcionou.

Agradeço a Deus pela sabedoria de ter reconhecido a tempo o quão valioso ele era, pois não vejo um momento que não tenha apreciado sua presença. Nos dávamos sempre bem? Não! Mas, se quer alguém que só concorde, converse com um espelho, pixuleco.

E assim, pude conhecê-lo tanto a ponto de saber a música que queria em seu último momento antes do calor. A ponto de não sofrer tanto com sua partida. A ponto de entender que um dia sem ele ler jornal, não era um dia que valia ser vivido.

Fim.

|o vermelho|

Querendo ou não, caí no vermelho.

Conversando com meu cabeleireiro percebi que, por mais que pensemos não saber quais são os nossos gostos, nos voltamos involuntariamente àquilo que nascemos capacitados a fazer.

Quando criança, sempre me perguntavam: “qual a sua cor favorita?”, nunca soube responder. Dizia que dependia do dia, que gostava de todas as cores. Então, passados vários anos, acabo descobrindo minha cor favorita, vermelho.

Como cheguei a essa conclusão? Me peguei usando uma bolsa vermelha com um tênis vermelho e uma blusa de frio vermelha na busca de um batom vermelho. Na hora caiu a ficha: “é vermelho!”.

Meu cabeleireiro descobriu sua profissão mais ou menos da mesma maneira. Nunca se imaginou cabeleireiro e não gostava muito de estudar as matérias da escola. Por quê não fazer um curso de corte de cabelo? Não era lá seu hobbie favorito, mas notou uma desenvoltura maravilhosa na atividade.

Se interessou pela área, pelas novidades. Lia sobre o assunto com prazer. E click caiu a ficha, se viu rodeado de tesouras, secadores e pentes. Descobriu que aquilo era o que tinha que fazer, porque sim.

Reparando essas descobertas sobre gostos, me lembro da época da escolha do curso da faculdade. Os alunos desesperados, um dia gostando de tudo, outro, de nada. Uma confusão mental e emocional absurda, mas acabaram descobrindo que a resposta para essa dúvida estava perto, estava em atitudes, manias e atividade que lhes proporcionavam alegria.

Nem sempre sabemos de tudo quando queremos, mas fiquemos atentos com o estalos, pois são eles que fazem a gente fechar os olhos para o medo e abri-los para o que realmente nos dá gozo. Adendo, toda profissão é rentável se você fizer com amor e não precisar pagar psicólogo pela escolha da carreira que dá dinheiro no momento.

Beijos e boa sorte aos futuros universitários, mestrandos, doutorandos, garis, encanadores, auto elétricos, soldadores, cabeleireiros, policiais, motoristas e cobradores de ônibus, atendentes do BK, vendedores… O mundo precisa de todos vocês.

🙂

|o ato mecânico|

Hoje, meu professor falou a seguinte frase: “Qualquer coisa que é mecânica não dura”. Disse isso pois notou que muitos alunos estava viciados em pegar suas questões na prova e, simplesmente, agir no modo automático para resolvê-las. Todo mundo foi mal na prova dele.

Na vida, eu noto que não é muito diferente.

Um proprietário de fábrica notando que seus operários faziam sempre os mesmos movimentos físicos para manter a produção funcionando, trocou seus operários por uma máquina, já que esta podia fazer o mesmo movimento mecânico e garantir maior lucro ao dono. Ou seja, o trabalho automático do homem não durou.

Em um relacionamento, se as coisas começam a ficar muito mecânicas, muito acomodadas, também não há a probabilidade de dar muito certo. É muito chato sempre as mesmas coisas, nenhuma surpresa, nada de novidade. Logo, um relacionamento onde as pessoas agem mecanicamente também não dá muito certo, ao meu ver.

Um professor que fala sempre no mesmo tom de voz. A partir do momento em que algo mecânico pode ser relacionado a movimentos com repetições constantes, sem oscilações, posso concluir que não durará muitas pessoas acordadas na aula de um acadêmico que dá uma aula inteira com a mesma intonação de voz.

Além desse exemplos, há vários outros onde o que é mecânico não dura. E creio que esse modo de pensar gera algumas mudanças, já que somos um pouco programados para viver uma vida cheia de regras, prazos e horários.

Humanos são aqueles que conseguem não agir como máquina.

Boa noite (:

|o choro da árvore|

Tinha uma árvore na casa em que morei quando era criança. Mas, por não sei quais motivos, foram cortados todos os seus galhos e ela ficou soltando uma gosma durante muito tempo até o dia em que ela morreu. Perguntei para a minha mãe o que era aquela substância que a árvore estava liberando, e então ela me explicou:”Lu, a árvore está chorando!”.

Então, todo dia em que passava perto do tronco, eu notava se ela ainda estava chorando. E fiz isso até o dia em que ela foi retirada do quintal.

Hoje, eu entendo que aquilo não era choro, era seiva. Mas, honestamente, tanto faz… Tanto faz, porque, cada dia mais, me deparo com uma vida mais cheia de conhecimento e de competições de sapiência que não levam a lugar algum.

Claro que a área do conhecimento em que me esforço para saber mais, eu posso ter bastante propriedade para debater. Contudo, não adianta falar com alguém de outras áreas e querer mostrar o que sei de uma forma rude, usando palavras técnicas. Acredito que seria uma atitude retardada, assim como se minha mãe tivesse me explicado cientificamente que na verdade a árvore não estava chorando.

Devemos admitir que a gente não sabe tudo sobre tudo e que não fomos criados para isso também. Embora haja pessoas que saibam conversar sobre tudo um pouco, não há necessidade de se discutir tão a fundo tudo sobre tudo, porque essa situação é chata e acaba afastando a pessoa que é indagada da que fica indagando.

Aceito até hoje que a árvore estava chorando, mesmo sabendo o que estava acontecendo. Aceito que coelho bota ovo durante a páscoa. Aceito beber Coca-Cola, mesmo sabendo que faz mal. Logo, se tudo é contraditório com o que real, porque aceito ? Aceito, pois, ainda que o conhecimento esteja aí na porta, eu quero ser feliz com aquilo que a minha moral e princípios permitem.

Eu quero comer coxinha e pensar que delícia é a oportunidade de ingerir algo tão bom sem me preocupar no óleo que pode me deixar gorda. Quero me deliciar com a sombra de uma árvore sem pensar na composição dela. Quero estourar plástico bolha me deliciando ao som de cada “barulhinho”. Eu quero ser livre desse anseio do saber constante e curtir aquilo que realmente importa no momento tendo como consequência ser mais feliz comigo mesma.

E para finalizar, a árvore estava chorando.

Boa tarde!

|a frase|

Quando criança ouvi muito a minha mãe dizer sobre seu avô. Ela me contava com muita alegria como ele fora uma pessoa boa, íntegra e, principalmente, como ele foi importante na criação dela. Parecia dizer tudo isso com o peito inflado de orgulho.

Ouvindo-a falar e vendo suas emoções aflorarem, não entendia o porquê de não sentir nada por ele. Eu deveria ter uns cinco anos e, talvez pela pouca idade, não entrava na minha cabeça o porquê de eu não sentir saudade de uma pessoa a qual uma imagem tão bonita fora passada para mim.

Em uma aula da faculdade, meu professor contou sobre um colega de trabalho, também educador da instituição, que até pouco tempo não sabia usar o Teorema de Pitágoras. Todavia, o mais interessante é que ele não estava se importando com esse não conhecimento.

Em suma, assim como minha mãe dissera há anos, o professor concluiu: “você nunca sentirá falta/saudade daquilo que você não conhece”.

Isso parece um tanto quando óbvio, mas, a cada dia aprendo mais que não é tão simples assim. Noto que aprender algo, novo é redundância, é uma forma de se permitir ter opções. É uma maneira de adquirir ferramentas para um melhor raciocínio, melhor relacionamento pessoal, ser melhor como gente. Aliás, permitir-se já é uma boa maneira de acrescentar créditos na sua bagagem e somar (sem perceber) conhecimento na vida dos outros.

Então é isso. Fico por aqui. Obrigada pela visita.

Boa noite.