|a participação especial|

Quando minha irmã começou a trabalhar, me deu um CD do Charlie Brown Jr. Acústico MTV onde havia uma música com participação especial da Negra Li. Como era novinha, achava que toda vez que o Chorão iria cantar essa canção a Negra Li apareceria magicamente para cantar junto. Doce ilusão.

Assistindo TV, o Charlie Brown apareceu cantando essa música. Então pensei: “Negra Li aparecerá em breve e todo mundo fará cara de feliz”. Que nada! Aprendi nesse dia o que era playback.

Quando mais nova, ocorria uma participação especial em casa todo dia por volta das 18. Todo mundo ficava feliz quando aparecia. Jantávamos juntos, ríamos, discordávamos, éramos felizes e plenos.

Só por aparecer, era especial. O herói, o dono do salame, da pescaria, da oficina no fundo de casa. O Chico. Chicão, para os mais íntimos. Meu pai. Com seus defeitos e qualidades, meu Pai.

Certa vez, minha mãe escreveu que cheguei com uma bagagem bastante grande para alguém tão novo. E no carrinho da montanha russa conheci alguns playbacks da participação especial: meu papagaio, que imitava igualzinho a voz dele; o correio de voz, era a voz dele; cadernos; fotos; fatos. Minha memória.

Não sou triste, mas sabe o que que é? Minha memória me trai e acaba esquecendo os detalhes. Eu era nova. Mas sempre levo comigo o carinho pela caixa de ferramenta, pela morsa que brincava de prender o meu dedo… O peixinho de plástico da pescaria tenho até hoje. Sinto saudade.

Mas apesar de tudo, que bela participação especial tive o prazer de ter comigo para assistir Xena A Princesa Guerreira.

Feliz dia dos Pais!

PS.: Toda vivência com alguém que amamos deve ser tratada como uma participação especial, pois nunca sabemos quando virá o playback. 

|o vermelho|

Querendo ou não, caí no vermelho.

Conversando com meu cabeleireiro percebi que, por mais que pensemos não saber quais são os nossos gostos, nos voltamos involuntariamente àquilo que nascemos capacitados a fazer.

Quando criança, sempre me perguntavam: “qual a sua cor favorita?”, nunca soube responder. Dizia que dependia do dia, que gostava de todas as cores. Então, passados vários anos, acabo descobrindo minha cor favorita, vermelho.

Como cheguei a essa conclusão? Me peguei usando uma bolsa vermelha com um tênis vermelho e uma blusa de frio vermelha na busca de um batom vermelho. Na hora caiu a ficha: “é vermelho!”.

Meu cabeleireiro descobriu sua profissão mais ou menos da mesma maneira. Nunca se imaginou cabeleireiro e não gostava muito de estudar as matérias da escola. Por quê não fazer um curso de corte de cabelo? Não era lá seu hobbie favorito, mas notou uma desenvoltura maravilhosa na atividade.

Se interessou pela área, pelas novidades. Lia sobre o assunto com prazer. E click caiu a ficha, se viu rodeado de tesouras, secadores e pentes. Descobriu que aquilo era o que tinha que fazer, porque sim.

Reparando essas descobertas sobre gostos, me lembro da época da escolha do curso da faculdade. Os alunos desesperados, um dia gostando de tudo, outro, de nada. Uma confusão mental e emocional absurda, mas acabaram descobrindo que a resposta para essa dúvida estava perto, estava em atitudes, manias e atividade que lhes proporcionavam alegria.

Nem sempre sabemos de tudo quando queremos, mas fiquemos atentos com o estalos, pois são eles que fazem a gente fechar os olhos para o medo e abri-los para o que realmente nos dá gozo. Adendo, toda profissão é rentável se você fizer com amor e não precisar pagar psicólogo pela escolha da carreira que dá dinheiro no momento.

Beijos e boa sorte aos futuros universitários, mestrandos, doutorandos, garis, encanadores, auto elétricos, soldadores, cabeleireiros, policiais, motoristas e cobradores de ônibus, atendentes do BK, vendedores… O mundo precisa de todos vocês.

🙂

|o brigadeiro|

Hoje, cometerei a ousadia de usar um brigadeiro para falar sobre amor.

Quando falam “brigadeiro”, imagino um doce redondo, preto, com granulado dentro de uma forminha de papel. Mesmo que 90% dos brigadeiros que já comi fossem de colher, uns muito moles, outros muito duros, alguns com uns empelotados de quase queimados. Ou seja, eles tinham um aspecto próximo a um cocô, aceitemos, essa é a realidade!

Contudo, mesmo o brigadeiro tendo a textura e cor de fezes, ele não deixa de ser brigadeiro e de dar água na boca das pessoas. Sim, brigadeiro é bom! Estando no formato que for: colher, copo, bolinha com granulado. Ele é bom. E, por quê? Porque a base se seus ingredientes é a mesma o que muda é o preparo.

Primeiro vem a paixão, depois, o amor. Uma escolha racional. Escolhemos amar.

Gostaria que o amor fosse igual ao gosto por brigadeiro. O amor muda, amadurece, mas continua sendo amor. As pessoas mudam fisicamente, mas continuam sendo pessoas. Tento entender a complexidade que é amar uma pessoa quando esta perde um braço, uma perna, um movimento.

Seria lindo se entendêssemos que escolher amar alguém, envolve amar o que a pessoa genuinamente é, sabendo que ela pode engordar, emagrecer, sofrer um acidente. Amor de aparência é roubada, porque as pessoas mudam fisicamente e com isso este amor muda e tudo pode acabar. Amar a combinação leite condensado + manteiga + achocolatado, independente do resultado final, é lindo, é puro, é eterno.

O amor é doce quando é Amor.

Beijos 🙂

|a pálpebra|

Uma greve é um período que paro para piscar.

No ensino fundamental aprendi sobre músculos e movimentos que nosso corpo executa sem pedirmos. O coração bate, o estômago faz digestão. Aprendi também sobre movimentos que são involuntários, mas que podemos ter controle por um período de tempo: respirar, piscar… E assim vai.

A rotina da faculdade é algo automático. Despertador toca. Mais cinco minutinhos. Engole um café, é preciso cafeína. Quando dá, come um pão. Chega na aula. Ah! Não! Se soubesse que era aula de revisão, nem vinha. Nossa, esse professor está usando a mesma camiseta da aula passada? Por quê ele não muda o tom da voz? To ficando com sono. Passou só 40 minutos de aula? Quero ir embora. Ufa! Acabou.

E do nada alguém fala para você piscar: “sua faculdade está de greve”.

Despertador toca. Mais cinco minutinhos. Será que tem aula? Engole um café, é preciso cafeína. Quando dá, come um pão. Será que o cronograma continua o mesmo? Chega na aula. Puts! Piquete. Ah! Não! Se soubesse dormiria mais um pouco. Nossa, será que a data da prova é a mesma? Quando é a data da assembléia? Por quê ninguém ouve o que temos a dizer? Será que sou a favor ou contra tudo isso? “Por contraste a greve continua”. Quero ir embora. Ufa! Acabou.

Nesse período você nota que estava em uma rotina. Você repara que as coisas não eram tão bonitas, mas, sim, que você estava alienado em suas regras e horários. Pensar em piscar só existe quando alguém te fala sobre piscar, ou quando, por algum motivo você pensa nisso. E então, pisca. Mas pisca diferente, pensa diferente, olha as coisas de forma diferente. Então, você se distrai, faz outra coisa, e volta a piscar automaticamente.

Esse breque em algo tão simples é o que te permite ver diferentes pontos de vista em uma coisa tão corriqueira. Greve não é bom, mas é necessário. Sair do automático não é confortável para ninguém, mas é necessário. Saia da caixa e pisque um pouco.

Beijos.

|o cabelo|

Há tempo, li um texto sobre viajar, onde dizia que não é necessário justificar o porquê de fazer uma viagem. Se você têm dinheiro, tempo e disposição, isso é mais que suficiente para conhecer lugares novos.

Era por volta das 14h de uma segunda qualquer, liguei para a minha mãe contando a novidade: “Cortei o cabelo!”. Claro, se eu tivesse cortado “3 dedinhos” não seria motivo para ligar, não é mesmo?! “Cortei maria joão!”, disse. Ela respondeu: “você corta o cabelo curto assim e não pergunta para ninguém? Doidinha!”.

Foi interessante a reação das pessoas com o meu corte, uma mistura de espanto, surpresa, houve aqueles que não gostaram, normal. Mas, parando para pensar sobre o que fiz, noto que só rompi meu próprio padrão perdurado por uns 16 anos.

Qualquer mudança que temos chama a atenção alheia, tanto se é para nos agradar quanto para agradar ao outros. Somos observados diariamente, ninguém é invisível. Por mais que você pense que você é camuflado, alguém te vê, acredite.

Pois bem, contei somente para uma pessoa antes de cortar, cortei e estou ótima. Acredito que pedir muito conselho sobre uma vontade terá consequências somente sobre você, é pedir para permanecer no seu próprio padrão. Se tiver oportunidades, não deixe o medo dos outros estragar suas vontades.

Beijos, ter cabelo curto é ótimo ❤

|a universidade|

Um amigo fazia universidade particular e se transferiu para uma faculdade pública. Minha tia saiu de São Paulo e se mudou para o interior da Bahia. Qual a relação entre os dois? Veremos…

A primeira reclamação desse meu amigo quando mudou de faculdade foi: “aqui as pessoas competem muito entre si, na particular não era assim”.  Sim, como aluna de instituição pública posso confirmar que as pessoas competem muito umas com as outras. Mas eu entendo (mesmo achando ruim) o porquê da competição: as oportunidades. Quem tem as melhores notas, consegue as melhores vagas de intercâmbio, as melhores iniciações científicas e outras coisas.

Conversando com outros amigos de escola particular, notei que eles não tem essa “neura” de ser melhor que o coleguinha, mas sim, de conseguir acompanhar o curso para poder se formar logo. Parece que deixam a competição mais para o mercado de trabalho. Contudo, creio que há exceções.

Em janeiro fui visitar a minha tia no interior da Bahia. A cidade é bastante isolada, têm uns cinco mil habitantes e a energia elétrica cai a cada chuva. Mas foi interessante descobrir que mesmo com todos esses problemas, 90% das pessoas que conheci nasceram lá e permanecem morando na cidade.

Eu me perguntei por que esse pessoal não tentou mudar de cidade, ter um emprego bom e todas as coisas que todos os paulistanos lutam na vida. A resposta foi rápida: as pessoas não precisam competir ferrenhamente para ter o pão de cada dia e eles estavam felizes com o que tinham.

Acredito que esse pensamento competitivo vem da cidade grande, essa ânsia por sempre querer mais. E isso ocorre porque, assim como na faculdade pública, na cidade grande, as pessoas precisam ser muito boas no que fazem para conseguirem as melhores oportunidades, nem que isso as deixem cegas. Muitas pessoas se esforçam tanto para serem melhores que os outros que esquecem que a vida é mais que isso, a vida é feita de experiências e cada fase da vida exige um pacote de aventuras diferente que, se não aproveitadas, escorrem pelos dedos como a areia da praia que você queria visitar e não foi.

Quando você estuda em uma faculdade, ou curso, em que os alunos competem menos, há mais tempo para ver a vida, porque você se preocupa com a sua nota e não com a do colega. Você se preocupa mais com a nota do semestre, não com a média do curso. É como as pessoas da cidade que visitei, elas era tranquilas e nada bitoladas. Você sentia a paz no ar, ao contrário da loucura do metrô de São Paulo as seis da tarde.

Sempre há os pontos fora da curva que quebram o gelo tanto do lugar calmo demais como do espaço agitado demais e são por causa dessas pessoas que conseguimos rever o real significado de felicidade e de qualidade de vida pessoal.

Boa noite, lind*s ❤

 

|a pizza|

“Tudo acaba em pizza!”, essa frase é a que mais resume a vida.

Quando você começa a aprender matemática, o primeiro tipo de gráfico o qual você tem que lidar é um de reta. As primeiras figuras e sólidos geométricos o qual aprendemos áreas e volumes não são arredondados também. Em português, as primeiras letras que aprendemos a fazer são as de fôrma. No mapa, vemos que a partilha da África foi quase feita na régua…

Conforme a vida vai passando, você descobre que é mais complicado descobrir a função de um gráfico com curvas. As áreas e volumes de figuras redondas são muito mais complexas. Escrever com letra de mão é mais “chato”, tanto é que muitas pessoas misturam letra de mão com letra de forma. Em geografia, aprendemos que as fronteiras dos países da África não são tão retas quanto parecem.

Arredondar não é algo fácil, mas, em geral, pizza não é quadrada.

É irônico falar “tudo acaba em pizza” com uma conotação de festa, pois isso só mostra quão complicado as circunstâncias se tornaram. Mas considerando que a pizza é uma criação do homem, assim como, a padronização das curvas, devemos admitir que, da mesma maneira que o homem complicou tudo, ele automaticamente se obrigou a encontrar maneiras de lidar com seus problemas.

Enfim, por mais que o homem tenha recriado o mundo usando casas decimais, a nossa vida acaba sendo mais confortável hoje do que quando só haviam números inteiros.

Concluímos então que não é tão simples solucionar os problemas com as voltas que o mundo dá, contudo, não adianta alimentar nossos medos com a complexidade criada pelo próprio homem. Simplifique.

Vamos pedir uma pizza?

Boa tarde 🙂