|o arroz e feijão|

O restaurante universitário, ou RU, não é o lugar favorito de muita gente, mas é lá que muitas pessoas vão todos os dias para salvarem seu pequeno orçamento universitário.

Arroz, feijão e carne. Arroz, feijão e kibe. Arroz, feijão e nuggets. Arroz, feijão e frango fimose. Arroz, feijão e… Uma rotina chamada arroz e feijão. Uma rotina chamada provas. Uma rotina chamada estudos. Uma rotina chamada faculdade.

Todo dia o mesmo gosto de arroz e feijão. Acordar, engolir um café por ter dormido uns cinco minutos a mais, ir para a faculdade, bandejar, tirar uma soneca, voltar para casa, estudar, bandejar, estudar, dormir. Arroz e feijão.

Minha rotina é tão regrada que quando me chamam para comer uma coxinha no bar que fica subindo o morro, eu morro de emoção. Quando tem pudim com gosto pseudo-baunilha-sem-gosto-de-baunilha no “bandeco”, eu abro um sorriso tão largo que você não imagina.

Presa pelas garras da rotina, essa sou eu nesse período. Mas… Em meio a tanto pessimismo do arroz e feijão eu consigo valorizar qualquer brecha, qualquer festa, qualquer piada que me faz mais feliz e me livra dessa fase tão penosa.

O vestibular me trouxe essa rotina. Mas, também, me trouxe um mundo tão interessante de se conhecer, pessoas tão legais, novos sonhos, amadurecimento. E são nesses momentos em que vejo além do ridículo sentimento de zerar uma prova, que eu degusto uma suculenta picanha.

Quem quer, consegue olhar além do que tem a sua frente.

Boa tarde!

Ps.: O pudim do “bandeco” me faz alguém melhor.

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|a participação especial|

Quando minha irmã começou a trabalhar, me deu um CD do Charlie Brown Jr. Acústico MTV onde havia uma música com participação especial da Negra Li. Como era novinha, achava que toda vez que o Chorão iria cantar essa canção a Negra Li apareceria magicamente para cantar junto. Doce ilusão.

Assistindo TV, o Charlie Brown apareceu cantando essa música. Então pensei: “Negra Li aparecerá em breve e todo mundo fará cara de feliz”. Que nada! Aprendi nesse dia o que era playback.

Quando mais nova, ocorria uma participação especial em casa todo dia por volta das 18. Todo mundo ficava feliz quando aparecia. Jantávamos juntos, ríamos, discordávamos, éramos felizes e plenos.

Só por aparecer, era especial. O herói, o dono do salame, da pescaria, da oficina no fundo de casa. O Chico. Chicão, para os mais íntimos. Meu pai. Com seus defeitos e qualidades, meu Pai.

Certa vez, minha mãe escreveu que cheguei com uma bagagem bastante grande para alguém tão novo. E no carrinho da montanha russa conheci alguns playbacks da participação especial: meu papagaio, que imitava igualzinho a voz dele; o correio de voz, era a voz dele; cadernos; fotos; fatos. Minha memória.

Não sou triste, mas sabe o que que é? Minha memória me trai e acaba esquecendo os detalhes. Eu era nova. Mas sempre levo comigo o carinho pela caixa de ferramenta, pela morsa que brincava de prender o meu dedo… O peixinho de plástico da pescaria tenho até hoje. Sinto saudade.

Mas apesar de tudo, que bela participação especial tive o prazer de ter comigo para assistir Xena A Princesa Guerreira.

Feliz dia dos Pais!

PS.: Toda vivência com alguém que amamos deve ser tratada como uma participação especial, pois nunca sabemos quando virá o playback. 

|o vermelho|

Querendo ou não, caí no vermelho.

Conversando com meu cabeleireiro percebi que, por mais que pensemos não saber quais são os nossos gostos, nos voltamos involuntariamente àquilo que nascemos capacitados a fazer.

Quando criança, sempre me perguntavam: “qual a sua cor favorita?”, nunca soube responder. Dizia que dependia do dia, que gostava de todas as cores. Então, passados vários anos, acabo descobrindo minha cor favorita, vermelho.

Como cheguei a essa conclusão? Me peguei usando uma bolsa vermelha com um tênis vermelho e uma blusa de frio vermelha na busca de um batom vermelho. Na hora caiu a ficha: “é vermelho!”.

Meu cabeleireiro descobriu sua profissão mais ou menos da mesma maneira. Nunca se imaginou cabeleireiro e não gostava muito de estudar as matérias da escola. Por quê não fazer um curso de corte de cabelo? Não era lá seu hobbie favorito, mas notou uma desenvoltura maravilhosa na atividade.

Se interessou pela área, pelas novidades. Lia sobre o assunto com prazer. E click caiu a ficha, se viu rodeado de tesouras, secadores e pentes. Descobriu que aquilo era o que tinha que fazer, porque sim.

Reparando essas descobertas sobre gostos, me lembro da época da escolha do curso da faculdade. Os alunos desesperados, um dia gostando de tudo, outro, de nada. Uma confusão mental e emocional absurda, mas acabaram descobrindo que a resposta para essa dúvida estava perto, estava em atitudes, manias e atividade que lhes proporcionavam alegria.

Nem sempre sabemos de tudo quando queremos, mas fiquemos atentos com o estalos, pois são eles que fazem a gente fechar os olhos para o medo e abri-los para o que realmente nos dá gozo. Adendo, toda profissão é rentável se você fizer com amor e não precisar pagar psicólogo pela escolha da carreira que dá dinheiro no momento.

Beijos e boa sorte aos futuros universitários, mestrandos, doutorandos, garis, encanadores, auto elétricos, soldadores, cabeleireiros, policiais, motoristas e cobradores de ônibus, atendentes do BK, vendedores… O mundo precisa de todos vocês.

🙂

|a pálpebra|

Uma greve é um período que paro para piscar.

No ensino fundamental aprendi sobre músculos e movimentos que nosso corpo executa sem pedirmos. O coração bate, o estômago faz digestão. Aprendi também sobre movimentos que são involuntários, mas que podemos ter controle por um período de tempo: respirar, piscar… E assim vai.

A rotina da faculdade é algo automático. Despertador toca. Mais cinco minutinhos. Engole um café, é preciso cafeína. Quando dá, come um pão. Chega na aula. Ah! Não! Se soubesse que era aula de revisão, nem vinha. Nossa, esse professor está usando a mesma camiseta da aula passada? Por quê ele não muda o tom da voz? To ficando com sono. Passou só 40 minutos de aula? Quero ir embora. Ufa! Acabou.

E do nada alguém fala para você piscar: “sua faculdade está de greve”.

Despertador toca. Mais cinco minutinhos. Será que tem aula? Engole um café, é preciso cafeína. Quando dá, come um pão. Será que o cronograma continua o mesmo? Chega na aula. Puts! Piquete. Ah! Não! Se soubesse dormiria mais um pouco. Nossa, será que a data da prova é a mesma? Quando é a data da assembléia? Por quê ninguém ouve o que temos a dizer? Será que sou a favor ou contra tudo isso? “Por contraste a greve continua”. Quero ir embora. Ufa! Acabou.

Nesse período você nota que estava em uma rotina. Você repara que as coisas não eram tão bonitas, mas, sim, que você estava alienado em suas regras e horários. Pensar em piscar só existe quando alguém te fala sobre piscar, ou quando, por algum motivo você pensa nisso. E então, pisca. Mas pisca diferente, pensa diferente, olha as coisas de forma diferente. Então, você se distrai, faz outra coisa, e volta a piscar automaticamente.

Esse breque em algo tão simples é o que te permite ver diferentes pontos de vista em uma coisa tão corriqueira. Greve não é bom, mas é necessário. Sair do automático não é confortável para ninguém, mas é necessário. Saia da caixa e pisque um pouco.

Beijos.

|a universidade|

Um amigo fazia universidade particular e se transferiu para uma faculdade pública. Minha tia saiu de São Paulo e se mudou para o interior da Bahia. Qual a relação entre os dois? Veremos…

A primeira reclamação desse meu amigo quando mudou de faculdade foi: “aqui as pessoas competem muito entre si, na particular não era assim”.  Sim, como aluna de instituição pública posso confirmar que as pessoas competem muito umas com as outras. Mas eu entendo (mesmo achando ruim) o porquê da competição: as oportunidades. Quem tem as melhores notas, consegue as melhores vagas de intercâmbio, as melhores iniciações científicas e outras coisas.

Conversando com outros amigos de escola particular, notei que eles não tem essa “neura” de ser melhor que o coleguinha, mas sim, de conseguir acompanhar o curso para poder se formar logo. Parece que deixam a competição mais para o mercado de trabalho. Contudo, creio que há exceções.

Em janeiro fui visitar a minha tia no interior da Bahia. A cidade é bastante isolada, têm uns cinco mil habitantes e a energia elétrica cai a cada chuva. Mas foi interessante descobrir que mesmo com todos esses problemas, 90% das pessoas que conheci nasceram lá e permanecem morando na cidade.

Eu me perguntei por que esse pessoal não tentou mudar de cidade, ter um emprego bom e todas as coisas que todos os paulistanos lutam na vida. A resposta foi rápida: as pessoas não precisam competir ferrenhamente para ter o pão de cada dia e eles estavam felizes com o que tinham.

Acredito que esse pensamento competitivo vem da cidade grande, essa ânsia por sempre querer mais. E isso ocorre porque, assim como na faculdade pública, na cidade grande, as pessoas precisam ser muito boas no que fazem para conseguirem as melhores oportunidades, nem que isso as deixem cegas. Muitas pessoas se esforçam tanto para serem melhores que os outros que esquecem que a vida é mais que isso, a vida é feita de experiências e cada fase da vida exige um pacote de aventuras diferente que, se não aproveitadas, escorrem pelos dedos como a areia da praia que você queria visitar e não foi.

Quando você estuda em uma faculdade, ou curso, em que os alunos competem menos, há mais tempo para ver a vida, porque você se preocupa com a sua nota e não com a do colega. Você se preocupa mais com a nota do semestre, não com a média do curso. É como as pessoas da cidade que visitei, elas era tranquilas e nada bitoladas. Você sentia a paz no ar, ao contrário da loucura do metrô de São Paulo as seis da tarde.

Sempre há os pontos fora da curva que quebram o gelo tanto do lugar calmo demais como do espaço agitado demais e são por causa dessas pessoas que conseguimos rever o real significado de felicidade e de qualidade de vida pessoal.

Boa noite, lind*s ❤

 

|o “smartphone”|

Outro dia, levei meu namorado para comer um hot dog que era a melhor definição de smartphone.

O lanche que comemos tinha frango, calabresa, cheddar, purê, requeijão e mais tantas coisas que para acharmos a salsicha precisou-se de alguma várias mordidas suculentas.

Os smartphones não são muito diferentes. Eles são uma versão absurdamente melhorada de um aparelho projetado para receber e fazer ligações. Contudo, por terem tantos atributos a mais, acabamos descaracterizando que se seria um celular (uma parte pequena de uma corpo conectado, pense nisso) e adquirimos pequenos computadores de mão.

Esses componentes a mais que os celulares modernos têm facilitam muito o nosso dia a dia, mas, por precisarem de muita memória para o armazenamento de tanta informação há um comprometimento da ligação em si. Então perdeu-se o sentido do objeto e criou-se um outro aparelho muito bom, mas, por vezes, perigoso.

O lanche que a gente comeu foi a apelidado de hot horse já que era muito grande para ser um dog. 

Na vida, diversas coisas acabam sendo descaracterizadas de seu sentido real porque muitos acreditam que há beleza na complexividade. Concordo em partes, pois quando pensamos muito para entender tudo, o cérebro cansa e desistimos. Então, não adianta você querer ser super enigmático e querer que todos te desvendem, principalmente pessoas que gostam de falar palavras difíceis (alguns professores, por exemplo), pois, nem sempre queremos um hot horse, às vezes só queremos escutar a voz de alguém no telefone.

Descomplique.

Boa tarde.

|o ato mecânico|

Hoje, meu professor falou a seguinte frase: “Qualquer coisa que é mecânica não dura”. Disse isso pois notou que muitos alunos estava viciados em pegar suas questões na prova e, simplesmente, agir no modo automático para resolvê-las. Todo mundo foi mal na prova dele.

Na vida, eu noto que não é muito diferente.

Um proprietário de fábrica notando que seus operários faziam sempre os mesmos movimentos físicos para manter a produção funcionando, trocou seus operários por uma máquina, já que esta podia fazer o mesmo movimento mecânico e garantir maior lucro ao dono. Ou seja, o trabalho automático do homem não durou.

Em um relacionamento, se as coisas começam a ficar muito mecânicas, muito acomodadas, também não há a probabilidade de dar muito certo. É muito chato sempre as mesmas coisas, nenhuma surpresa, nada de novidade. Logo, um relacionamento onde as pessoas agem mecanicamente também não dá muito certo, ao meu ver.

Um professor que fala sempre no mesmo tom de voz. A partir do momento em que algo mecânico pode ser relacionado a movimentos com repetições constantes, sem oscilações, posso concluir que não durará muitas pessoas acordadas na aula de um acadêmico que dá uma aula inteira com a mesma intonação de voz.

Além desse exemplos, há vários outros onde o que é mecânico não dura. E creio que esse modo de pensar gera algumas mudanças, já que somos um pouco programados para viver uma vida cheia de regras, prazos e horários.

Humanos são aqueles que conseguem não agir como máquina.

Boa noite (: